A mediocridade da cultura brasileira

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Mário Frias e Bolsonaro posam para foto.
Foto: Reprodução Instagram.

Há assuntos que são recorrentes. Um deles é a composição dos Ministérios e Secretarias deste governo quadrúpede.

Mais precisamente, falemos da Secretaria de Cultura do Governo Federal. Desconhecendo por completo a área cultural, Bolsonaro ouviu soprar no seu ouvido “nomeie Regina Duarte. Regina Duarte é muito querida na categoria. Ela é respeitada, você vai marcar um gol nomeando Regina Duarte!”. Dito e feito, Bolsonaro nomeou Regina Duarte.

E foi aquele fiasco, aquela rejeição total da categoria.

Frustrado, raivoso e vingativo como só ele sabe ser, Bolsonaro então troca Regina Duarte por Mário Frias.

Há países civilizados que tiveram e têm ministros da cultura honram sua nação. Mário Frias nos joga no abismo da ignorância e da incultura.

Mas quem é ele? Mário Frias é um ex-bonitinho. Quando gravamos uma novela séria, é a turma dos feios, que são os talentosos, que é pau para toda obra. Os feios que se sujam de lama, que saem no tiroteio, que pulam muro. É a turma que sofre, que toma tapa na cara, que usa roupa suja. Essas pessoas fazem o cerne da novela.

Quando os feios talentosos acabam de gravar as cenas, entram os bonitinhos. Esses são os atores que ficam namorando, fazendo doce de mel. Não tenho nada contra eles, porque novela tem que ter isto. Mas é uma brincadeira recorrente quando saímos do set dizer “Agora é a vez dos bonitinhos”.

Então, por algum tempo Mário Frias fez parte dos bonitinhos. Com olhos azuis, rosadinho e lourinho fez uma ponta em Malhação. Repito: uma ponta em Malhação. Malhação, que já é a ante sala que prepara atores que tem talento para novelas. Se o ator ou atriz tem talento, segue para a novela. Como ele não tinha, morreu ali mesmo.

Porém a Record aproveitou. Depois disso, a emissora o chamou para fazer um rei, desses reis de passagem em novela bíblica.

Portanto Frias tem uma participação como o rei novela bíblica. E o currículo dele se resume a isso: uma participação em Malhação e uma participação como o rei numa novela bíblica da Record. Isto é tudo o que ele entende de cultura, de artes cênicas, de audiovisual, de cinema e de teatro.

Tendo isso em vista, Bolsonaro, para fazer pirraça com a categoria, nomeia este cidadão para Secretário de Cultura.

Frias talvez entenda melhor de enfiar uma linha numa agulha como projeto cultural de costureiro. Sem nenhum demérito para os costureiros, apenas deve ser mais fácil para Frias enfiar uma linha numa agulha do que raciocinar culturalmente ou ter um pensamento intelectual.

Porém, se Bolsonaro pensava que nos castigaria, está redondamente enganado. A categoria como um todo ignora este rapaz, que não tem nenhuma qualificação para assumir o posto que assumiu.

Vale ressaltar que no governo Bolsonaro qualquer qualificação, por pior que seja, sempre é melhor do que os desqualificados totais que assumem Ministérios e Secretarias. Desta forma não se sabe se é pior o funcionamento dos Ministérios e Secretarias ou quem os comanda.

Com isso, vemos este rapaz ditando normas, todo feliz da vida, todo sorridente, porque é a chance que ele estava esperando. Desempregado, buscando desesperadamente ser contratado por alguma companhia teatral, ninguém o contratava porque não tem talento. Buscando entrar em uma novela, ninguém o chamava porque não tem talento. Ele estava sem ter o que fazer no limbo da classe artística.

O tipo de Mário Frias é conhecido. É aquele tipo que aparece e diz “Já fiz esse negócio de novela… eu já trabalhei nesse negócio de teatro…” fica por isso mesmo.

Agarrado como um carrapato em Bolsonaro, agradece a Deus quando é nomeado na última instância da cultura. Frias fica, então, todo feliz, sorridente e gracioso. Aproveite, rapaz. Aproveite, já que os ridículos também tem vez.

Não me levem a mal, a minha função como comediante e humorista é ser ridículo, eu ganho para ser ridículo. Sou um profissional do ridículo. Entretanto Mário não passa de um amador do ridículo.

Há de chegar o momento em que Frias irá para o ostracismo. Ninguém mais vai lembrar dele, pois já está chegando aos 50, vai engordar e vai perder toda sua beleza. Irá sobrar apenas um resto de olhos azuis, vidrados e embaçados pela tristeza, pela raiva e pela frustração.

Me pergunto se Mário não arranjaria um emprego para outro amiguinho, o Paulo Cintura. Ele foi até para a porta do Palácio da Alvorada gritar “Bolsonaro é o que interessa, o resto não tem pressa!”, desesperado atrás de um emprego.

Isso porque ele é um ator, se é que se pode chamar de ator, de um único personagem. Ele é o próprio Paulo Cintura e não pode fazer qualquer outro personagem. Assim como Frias só conseguia fazer o bonitinho, o rei bonitinho, o galãzinho bonitinho, Paulo só pode ser Paulo Cintura e nada mais.

Coitado, ele se esforçou, ele foi na rampa do Planalto. Preocupa muito as dificuldades que o Paulo Cintura passa. Mesmo em um regime fascista, não custa nada arranjar emprego para pessoas simples, como é o caso dele.

Ao Mário Frias, não pense que esquecemos de você como esquecemos do Vereza. Triste fim de Vereza, que passou para a história como aquele que traiu seus ideais.

Seja lá como for, permanecemos firmes e fortes. Cada vez mais fortes, cada vez mais lúdicos, cada vez mais pensantes, cada vez mais intelectuais.

Permanecemos firmes contra a imbecilidade, contra o marasmo, contra o tédio, contra a ignorância e contra a estultice que tentam nos impor.

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