Artigo | “Bowling Saturne”: filme francês conta história de

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De repente nos arredores das cidades de Deauville e Caen, na Normandia, no norte da França, aparecem, em lugares diferentes, embrulhadas em plásticos azuis, jovens mulheres assassinadas com requintes de grande violência. O espectador do filme Bowling Saturne, na competição internacional do Festival de Cinema de Locarno (Suíça), sabe quem é o criminoso, viu mesmo como ele convence as garotas a irem ao seu apartamento. Mas a polícia quebra a cabeça, sem descobrir traços ou indícios capazes de levar ao feminicida, e só no fim do filme consegue identificar uma das vítimas. 

Quem se ocupa das investigações é o inspetor Guillaume, policial meticuloso mas um tanto solitário. Não se vê ao seu redor nenhuma mulher. A série de assassinatos é grave e tudo leva a crer ser cometida por algum maníaco sempre disposto a recomeçar se não for descoberto. Enquanto isso, o espectador se envolve com a outra atividade de Guillaume, a de proprietário de um boliche, recebido como herança de seu pai. Uma atividade que lhe toma tempo, mesmo com empregados para ajudá-lo e da qual pensa se desfazer.

Por isso, é com certo alívio que vê ressurgir seu meio-irmão, filho adulterino do pai: um tanto mais jovem, meio perdido na vida e desempregado, com o qual nunca teve maior contato. Armand, seu nome, aceita administrar o boliche e se mostra satisfeito por ter, enfim, um trabalho e alguma coisa séria para fazer na vida. Ele pensa em como aumentar as receitas do local, e ganha também um apartamento, onde antes vivia seu pai.

Bowling Saturne é um filme francês, da cineasta Patricia Mazuy, que em 1994 já havia ganhado o terceiro prêmio (o “Leopardo de Bronze”) na competição do Festival de Locarno com Eu e Travolta. A nova produção é um thriller, com um enredo ou história à la française, mas com cenas de violências típicas dos filmes policiais norte americanos. Bowling Saturne foi exibido no começo do Festival e se manteve como um dos violentos da competição. 

O objetivo de Patricia Mazuy é mostrar como a violência masculina é ainda marcante na sociedade. Mas o filme explora outro aspecto, aparentemente desvinculado das investigações sobre o serial killer. O pai de Guillaume e de Armand era um aficionado por caça e pertencia a um grupo de organizadores de safáris na África, com o objetivo de matar grandes animais selvagens como leões, tigres. Ele levava troféus dessas caçadas e filmava a morte dos animais. Um encontro com projeções desses filmes mostrava o júbilo desses caçadores, agora idosos, quando abateram os animais sem outros objetivos que não o prazer de matá-los.

Embora Armand tenha sido abandonado pelo pai, acaba se identificando com ele ao vestir sua roupa de caçador feita de pele de uma grande cobra piton. Entretanto, em vez de caçar animais, preferia caçar jovens indefesas frequentadoras do boliche. Depois de levá-las a seu apartamento, o romantismo inicial era substituído por uma relação sexual violenta, seguida de mortes a pancadas, sem qualquer razão, por uma pulsão violenta, como os animais selvagens caçados e abatidos por seu pai.

*Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. É criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

Edição: Felipe Mendes

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