As bizarras mentiras do Bolsonaro

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As bizarras mentiras de Bolsonaro

Na mesma semana em que vimos uma enorme conquista para a ciência brasileira – e eu me refiro obviamente à vacina do Instituto Butantã, que agora começou a ser distribuída para todo o Brasil e logo os profissionais de saúde e, na sequência, os cidadãos em situação de risco começarão a receber essa vacina – presenciamos, como resposta a isso, a máquina de mentiras do Bolsonaro entrando em atividade.

O presidente de um governo que o tempo todo criticou e atuou para desacreditar a vacina produzida em São Paulo, que tentou desestimular os brasileiros a se vacinarem, agora diz que essa vacina não é de São Paulo, que é de todo o Brasil, de todos os brasileiros.

Felizmente, essa parte, de que a vacina será de todos os brasileiros que precisam dela para poderem voltar à normalidade, coincide com a verdade.  A mentira de Bolsonaro surge na apropriação deste feito, como se fosse uma conquista dele, o que não é.

É de se celebrar que, em um ano aproximadamente, essa vacina deverá ter atendido a todos os brasileiros que dela precisam, mas a máquina de mentiras entrou em atividade e quer girar a narrativa transformando essa história em uma conquista que, em parte foi de João Dória, governador de São Paulo, desafeto público do presidente.

Bolsonaro já havia feito algo similar anteriormente, no episódio da concessão do auxílio emergencial, uma vitória, ou até uma imposição do Congresso ao governo Bolsonaro. Uma conquista, na verdade, da oposição ao governo, mas a máquina de mentiras transformou isso num feito do Bolsonaro, o que levou, como consequência, à significativa melhora nos índices de popularidade do presidente.

A pesquisa publicada ontem pela XP mostra que só agora, com o fim do auxílio emergencial e, provavelmente, com os episódios horrendos de Manaus, a aprovação do governo volta para próximo dos patamares de pouco antes da concessão do auxílio. Mesmo assim, segundo o mesmo Instituto, antes da pandemia só 25% aprovavam o governo, e agora são 32%, e 50% o reprovavam, agora são 40%. O mais previsível é que tanto a queda na aprovação quanto o aumento da reprovação devam caminhar em desfavor do governo, a ver.

O chargista Maurício Ricardo fez um vídeo sobre como opera essa máquina de desinformação bolsonarista, recomendo. Se chama A ciência ganhou uma, mas o jogo continua. Ele acerta na mosca ao falar sobre o tema, abordando o mecanismo por detrás disso, como isso funciona. O fato é que os apoiadores fanatizados de Bolsonaro não têm acesso aos mesmos veículos de comunicação que a gente, não assistem às mesmas coisas, não leem as mesmas coisas, não compartilham das mesmas informações que nós, que as buscamos em certos conjuntos de referências ou fontes tradicionais e que nos parecem confiáveis. Eles, por sua vez, buscam suas referências em outros locais, e assim passam a  integrar uma máquina de desconstrução da verdade, por terem perdido a noção de que existe uma correspondência entre o discurso, a narrativa que defendem e os próprios fatos.

Para entendermos melhor como isso funciona, vale a leitura de alguns livros que empreendem uma reflexão sobre essa conexão entre discurso, narrativa e fatos, sobre essa desconstrução da verdade, esse trabalho que a extrema direita global faz de maneira sistemática.

Trump foi alguém que usou dessa máquina de desinformação, de mentiras, para enganar o seu eleitorado e o Bolsonaro fez e continua a fazer a mesma coisa.

Eles não são os únicos a adotarem esta prática, tampouco é exclusividade da extrema direita políticas. Outros grupos também atuam deste modo, tanto que, ao se analisar este fenômeno, muitos pesquisadores se inspiram em regimes totalitários do passado, como na Alemanha nazista, na Itália fascista, bem como no regime socialista soviético, que também adotava a propaganda para desinformar e criar essa desconexão entre narrativa e fato.

No quarto capítulo de Como funciona o fascismo, intitulado Irrealidade, Jason Stanley afirma logo em seu início: “A política fascista substitui o debate fundamentado por medo e raiva. Quando é bem-sucedida, seu público fica com uma sensação de perda e desestabilização, um poço de desconfiança e raiva contra aqueles que, segundo foi dito, são responsáveis por essa perda.”

Então, a política fascista, e não apenas do fascismo italiano histórico, mas dessa mentalidade fascista, desta técnica fascista de dominação, explora e canaliza os sentimentos primitivos do ser humano, tais como ódio, raiva e intolerância. Canaliza essa indignação, esse ressentimento e os direciona contra seus inimigos. Usa da mentira para isso.

Jason Stanley prossegue: “a política fascista troca a realidade pelos pronunciamentos de um único indivíduo, ou talvez de um partido político. Mentiras óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo qual a política fascista destrói o espaço da informação. Um líder fascista pode substituir a verdade pelo poder, chegando a mentir de forma inconsequente. Ao substituir o mundo por uma pessoa, a política fascista nos torna incapazes de avaliar argumentos com base no padrão comum, o político fascista possui técnicas específicas para destruir os espaços de informação e quebrar a realidade”.

Então, o primeiro esforço da dominação política de uma ideologia fascista, ou de um governante fascistoide, é justamente romper essa conexão entre a verdade e os fatos, entre aquilo que a gente diz e aquilo que a gente vê.

Quem trabalhou muito esse tema e falou muito bem sobre isso, inspirado principalmente na União Soviética, foi George Orwell, em seu livro 1984, a obra-prima dele. Essa obra é assustadora, porque mostra justamente esse procedimento de propaganda e de desinformação.

Há, no livro, por exemplo, o Ministério da Verdade, que é basicamente o Ministério da Mentira.  Orwell trabalha com esses antônimos: a verdade é a mentira e a mentira é a verdade; a guerra é a paz e a paz é a guerra. Ou seja, no livro há um organismo do governo – um governo com perfil fascistoide, ainda que inspirado no regime stalinista – há um Ministério que faz todo o esforço, de forma sistemática, para a desconstrução da verdade, para romper a conexão entre o que a mensagem oficial diz e aquilo que a população enxerga.

Há no livro as teletelas nas casas das pessoas e alto-falantes nas ruas que emitem ininterruptamente comunicados do governo. Aí, é anunciado que a ração de chocolate que as pessoas recebem vai diminuir, mas a nova cota é apresentada como um aumento, como se antes fosse menor.  As pessoas aplaudem, celebram, sendo que receberão menos chocolate que antes.  Ou seja, é um sistema de mentiras. Como as pessoas estão constantemente sendo bombardeadas por desinformação, por mentiras, por informações conflitantes, elas não sabem como se orientar. Há uma disfunção cognitiva, uma disjunção, você já não sabe mais onde buscar, quem está com a verdade e quem não está, então passa a acreditar naquela figura que lhe parece ser a que tem a resposta. Então, você encontra um guru ideológico, um Olavo de Carvalho da vida… encontra um líder político, um Bolsonaro da vida, um mito, e volta toda sua atenção àquilo: se ele disse, é verdade; se ele não disse, é mentira.

É o rompimento de um solo comum, de uma base comum de conhecimento, no qual todos nós possamos olhar e verificar se é verdade ou não. Cada cidadão desses está fechado em espaços de manipulação da informação e do conhecimento.

Outro autor que fala sobre isso, inspirado na vitória do Trump em 2016, mas que certamente serve para Bolsonaro, é o historiador Timothy Snyder em seu livro Sobre a tirania. O livro tem 20 lições extraídas do século 20 e a décima é Acredite na verdade, cuja introdução diz:  Abandonar os fatos é abandonar a liberdade, se nada for verdade, então ninguém pode criticar o poder, porque não há base sobre a qual fazer isso. Se nada for verdade, então tudo é espetáculo. Os bolsos mais fundos pagam pelas luzes que cegam.  Snyder fala sobre as teorias conspiratórias, o uso da desinformação, da mentira como política de controle fascista. Inclusive, menciona outro livro, A linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, um linguista judeu na Alemanha nazista.  Trata-se de um diário de Victor Klemperer no qual ele relata a manipulação que o regime nazista fazia da linguagem, e a desconexão que entre o que era dito e os fatos. Apresenta-nos como foi utilizado o rádio e os alto-falantes que também divulgavam a mensagem de Hitler. Os judeus eram proibidos de ouvir rádio, era proibido escutar a mensagem do Führer, do líder, enfim, de Hitler.

Em nossa época, o veículo usado para a desinformação, para confundir as pessoas e romper esse vínculo entre discurso e fato são as redes sociais. Elas têm um potencial altamente destrutivo, porque, embora algumas redes sejam públicas, como YouTube, Facebook, Twitter e Instagram, nas quais pode-se ler e verificar eventuais mentiras e, deste modo, desmenti-las, algumas redes sociais são privadas, como WhatsApp e Telegram, por exemplo.

As pessoas ficam no celular, em grupos, conversando, propagando desinformação, e mentiras, e nós simplesmente não temos acesso, excetuando aqueles que pesquisam esse tipo de interações.

É principalmente lá que a propaganda e a desinformação se disseminam; onde seu pai, sua mãe, seu avô ou avó, seu tio, sua tia, um primo estão, acessando esses grupos e recebendo um bombardeio de mentiras. São, em geral, pessoas que não sabem distinguir, até porque este é, por excelência, um procedimento de regimes fascistoides: o desestímulo ao senso crítico, para que você não pense por conta própria, para que você pense de acordo com o líder ou com o grupo, para que você sempre repita aquilo que os outros disseram, para que você não realize esse esforço individual de parar e pensar: “que estranha essa mensagem” ou “que estranho esses comentários, que estranha essa fala, vou verificar, vou investigar, checar se é verdade ou não”.

Eles desestimulam isso. Você é obrigado a seguir quem está ditando as regras, o discurso, aquilo que seria “a verdade”. É nessa hora que você se torna o gado, o rebanho, porque você não está mais pensando por conta própria, você não é mais um livre pensador, você não é alguém que para e questiona as coisas, é simplesmente alguém que reproduz aquilo que foi dito.

Esse desestímulo ao senso crítico é crucial para regimes autoritários. Tanto que, quando você se dá um golpe de estado em um país, como foi no Brasil nos anos 60, uma das primeiras coisas que eles fazem é atacar cursos como Filosofia, História, Sociologia… Os chamados cursos de Humanas, nos quais as pessoas exercem a reflexão, o questionamento, a crítica, a avaliação daquilo que se dá no mundo. E onde exercem também a investigação e a dúvida.

Há uma fala do filósofo esloveno Slavoj Žižek de que, quando ele era criança na Iugoslávia, um estado autoritário, no finalzinho do regime do ditador Tito, os cidadãos viam uma porção de slogans nas vitrines das lojas, um monte de frases de efeito para estimular a classe trabalhadora, mas o trabalhador iugoslavo sabia que era tudo mentira, que aquilo não era real, que tudo já estava em colapso. Só que ninguém falava publicamente porque tinha medo, não podia falar. Então as pessoas viviam, pelo menos na superfície, a mentira, porque sabiam que confrontar a mentira tinha um alto preço, pagava-se um alto preço para confrontar a desinformação, a manipulação da verdade.

O que estamos vivendo hoje no Brasil faz parte, de certa forma, desse mecanismo de regimes autoritários, de governantes ditatoriais e manipuladores, que querem justamente desconstruir a noção de que os fatos existem. Eles podem vir aqui e se contradizer amanhã, falar o oposto do que falam hoje e ninguém se importará, porque isso é irrelevante. O que importa é o que o líder disse, quem está no topo ditando pra gente.

Maurício Ricardo mencionou que, por trás disso, há uma questão de valores, e isso é fato.

“Nós somos cidadãos de bem e estamos aqui numa cruzada contra os infiéis”. Há aí um espírito de templários, de cruzados, de cristãos enfrentando os infiéis, o que gera nessas pessoas a percepção de uma guerra santa contra os pagãos, o que os autoriza a fazer as coisas mais bárbaras que se possa imaginar, com violência, se for necessário, porque, no fundo, os fins justificam os meios.

Aceitam que esses líderes estejam dispostos a tudo para se manter no poder, porque isso faz parte de uma cruzada contra infiéis.

O problema é todos pensam ser os verdadeiros cidadãos de bem, todo mundo acha que detém a verdade, todos acreditam ter razão e que seus fins são melhores que os dos outros.

Eles se dizem cristãos, mas quando você lê a catequese católica se depara com um trecho em particular que diz de maneira explícita que os fins não justificam os meios. Portanto, a própria Igreja Católica condenaria esse tipo de cruzada religiosa – cruzada cristã contra infiéis, contra impuros que devem ser suprimidos. Que devem ou se curvar ou desaparecer, como diria Bolsonaro.

Temos um governo que mente descaradamente, que estava dias atrás criticando a vacina do Dória, a vacina de São Paulo, dessa parceria entre o Butantã e a China, estava detonando a vacina. Agora, eles dizem que esta vacina não é de São Paulo, mas do Brasil, porque o governo Federal e o SUS ajudaram, porque o Ministério da saúde mandou verbas.

Mentem descaradamente e o gado bolsonarista compra isso.

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