Atuante contra a ditadura, Sindicato dos Jornalistas do

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A trajetória da capital brasileira, fundada há 62 anos, se confunde com a da organização que representa os profissionais que ajudaram e ajudam a escrever e registrar a história da cidade, e também do país.

Completando exatamente seis décadas de existência em 2022, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) nasceu apenas dois anos depois da fundação de Brasília. A marca da entidade, desde então, tem sido a luta pela construção da democracia e de resistência ao autoritarismo.

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Para marcar a memória desse período histórico, a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) realizou nesta terça-feira (30) uma sessão solene, convocada por iniciativa do deputado Chico Vigilante (PT), em conjunto com a deputada distrital Arlete Sampaio (PT) e os deputados Leandro Grass (PV) e João Cardoso (Avante).  



Sessão solene na Câmara Legislativa do DF marcou os 60 anos de fundação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF / Rinaldo Morelli/CLDF

Logo na abertura da sessão, Vigilante fez questão de relembrar a participação do SJPDF em acontecimentos marcantes da história de Brasília, principalmente desde o fim da década de 1970. O parlamentar citou a revolta dos trabalhadores da construção civil da capital federal, a greve dos professores do DF, a greve dos vigilantes e a cobertura sobre o assassinato do jornalista Mário Eugênio, pressionando as autoridades para que o crime fosse devidamente investigado e apurado.

O parlamentar petista registrou ainda a participação do sindicato e da categoria dos jornalistas na luta pela redemocratização do país por meio do movimento das Diretas Já, inclusive com a cobertura das manifestações e do dia da votação.

“Na ocasião, o general Newton Cruz saiu para as ruas com aquele sabre, espancando os carros e ali estava o Sindicato dos Jornalistas”, disse Vigilante. “É um sindicato que tem história, tem passado, tem presente e certamente terá muito futuro neste momento tão grave que a nação brasileira vive. Vida longa a esse sindicato, que representa muito e continua sendo tão necessário à luta dos trabalhadores”, concluiu Vigilante.

“Quando penso nos 60 anos do sindicato, penso na maturidade e na renovação. Precisamos cuidar desse legado que foi colocado aqui e revitalizar toda essa trajetória. Essa é nosso compromisso”, destacou Juliana César Nunes, atual coordenadora geral do sindicato. Desde 2013, a entidade não tem mais o cargo de presidente e a direção é compartilhada de forma colegiada por três coordenadores gerais e sete coordenadores executivos. 

Golpe de 1964

O primeiro presidente eleito para dirigir a entidade sindical dos jornalistas foi Aristeu Aquides. Três meses depois de ser escolhido, devido ao Golpe de 1964, ele estava preso e seu mandato sindical foi cassado pelo governo autoritário. Em seguida, ele indicou o nome de Arnaldo Ramos que assumiu a presidência até 1967, quando foi banido. Arnaldo foi o responsável por conseguir as sedes do sindicato e do histórico Clube da Imprensa.



Em 1984, fotógrafos que cobriam o Planalto baixam as câmeras durante passagem do presidente militar João Figueiredo: protesto em plena ditadura contra o autoritarismo do mandatário / J. Silva/Folha de S. Paulo

A entidade esteve, juntamente com outras instituições da sociedade civil, à frente da luta pela redemocratização do país no final dos anos 70 e início dos anos 80, funcionando como uma espécie de base avançada contra a ditadura e influenciando na nova proposta política para o Brasil.

Um dos convidados da sessão solene, o jornalista Hélio Doyle, que presidiu a entidade por dois mandatos consecutivos entre 1980 e 1986, relembrou o trabalho de composição política necessário para vencer as eleições na instituição em 1977, período em que a ditadura começou a declinar e a luta social voltou a crescer no país.

“O sindicato estava desde 1964 praticamente sob intervenção do regime militar e para vencermos as eleições foi preciso fazer uma aliança com os liberais, que inclusive ocuparam a presidência e a vice, tendo à frente os jornalistas Carlos Castelo Branco, o Castelinho, e Rubem de Azevedo Lima”.

A Era Castelinho

A eleição de Carlos Castello Branco para presidente do Sindicato é considerada fundamental para a entidade ganhar vida naquele período, se tornando uma força política em plena ditadura militar. Na época, segundo relata o sindicato em sua página na internet, Castelinho resistiu se candidatar, mas com ajuda de Pompeu de Souza, editor da Veja e senador de Brasília, acabou se convencendo de que tinha um papel a cumprir dentro da entidade. A candidatura de Castello Branco foi a oportunidade para que jovens jornalistas de oposição à ditadura conquistassem o comando do sindicato, incluindo, entre eles, o próprio Hélio Doyle, Carlos Marques, Oswaldo Morgado e Armando Rollemberg.

Constituinte

O Sindicato dos Jornalistas também se posicionou na vanguarda do movimento da Constituinte, juntamente com outras categorias. Em 1986, a entidade organizou um Encontro Nacional de Jornalistas preparatório para o que viria ser a nova Carta Magna, que teve contribuições importantes sobre garantia do direito à comunicação, liberdade de expressão e prerrogativas profissionais da categoria na lei máxima da nação.

A jornalista Jacira da Silva, ex-presidente do SJPDF entre 1995 e 1998, lembrou que a instituição garantiu a primeira Marcha Zumbi dos Palmares, que foi em celebração aos 350 de seu nascimento. Além disso, ressaltou que o sindicato também luta para a instalação do Conselho de Comunicação no GDF. “Esse conselho do DF precisa existir de fato”, reivindicou.

Presidente da Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF) Rodrigo Rodrigues também participou da sessão solene e destacou o papel fundamental do Sindicato dos Jornalistas na luta dos trabalhadores da capital do país. “A luta contra a precarização que todos os trabalhadores sofrem, incluindo na comunicação, com as diversas formas de contratações precárias, tem sido uma bandeira importante deste sindicato”. 

Do autoritarismo à violência

Apesar de um período de ascensão democrática no país, que começou no final dos anos 1980 e foi até o período recente, o sindicato voltou a enfrentar, nos últimos anos, o desafio de resistir ao avanço do autoritarismo e da violência.

Uma das coordenadoras gerais do Sindicato na atual gestão, Renata Maffezoli lembra a escalada de agressões sofridas por jornalistas nos últimos anos, em particular aquelas proferidas pelo próprio presidente da República. “Nos últimos três anos, de acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a violência contra jornalistas cresceu exponencialmente. Só em 2021 foram 119 casos de agressão por parte do presidente”, relata.  

A luta por igualdade de gênero também marca a atuação da organização, por meio do Coletivo de Mulheres Jornalistas. “Ao menos 74% das mulheres jornalistas já sofreram algum tipo de assédio sexual no exercício do trabalho. O coletivo vem atuando para desnaturalizar o assédio na nossa profissão”, acrescenta Renata.

Moacir Oliveira Filho, diretor de jornalismo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), afirmou que a entidade tem se preocupado com a escalada da violência contra jornalistas no exercício da profissão. Disse ainda que a entidade faz uma defesa intransigente da comunicação pública, e citou o aparelhamento sofrido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) no atual governo federal. “Não podemos permitir que uma empresa como a EBC seja transformada apenas em uma assessoria de imprensa do Poder Executivo”, afirmou.

Representando a Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCP), o ex-presidente do SJPDF, Lincoln Macário, disse que a luta pelo direito à comunicação, especialmente pública é uma luta de todos. “A comunicação pública, o jornalismo e a comunicação como um todo, mesmo aquela de entretenimento são fundamentais para o exercício da cidadania e da democracia e por isso devem ser uma luta de toda a sociedade”, afirmou.

Pacotão e Clube da Imprensa

O icônico Clube da Imprensa tem na sua história a referência de ser um espaço de convivência e de resistência. Palestras, exibições de filmes, reuniões do Comitê de Anistia aconteciam no Clube, além de entrevistas, como uma histórica coletiva realizada com Luiz Carlos Prestes. Foi lá também que surgiu o bloco carnavalesco Pacotão, um dos mais tradicionais de Brasília. O Pacotão foi uma tentativa de criar o carnaval de rua de Brasília e, por outro lado, era um movimento de protesto.



Bloco Pacotão, um dos mais tradicionais de Brasília, foi fundado por jornalistas e unia folia a protesto durante o carnaval / Arquivo/SJPDF

Atualmente em reformas, por meio de uma parceria, o Clube deve ser reaberto para a categoria até o fim da próxima gestão, apesar de ainda não haver uma data definida. “A instituição está trabalhando firme para reabrir o Clube da Imprensa, o que está muito próximo de acontecer”, afirmou Juliana César Nunes. Em setembro, o sindicato elege uma nova diretoria para o triênio 2022/2025. 

Bar do Boldo

Na parte de trás da antiga sede do sindicato, funcionava um bar que se chamava Boldo. De acordo com o relato histórico do SJPDF, o local era um ponto de encontro dos jornalistas que se distraiam e discutiam sobre os temas cotidianos.

“Era no Boldo que os jornalistas tiravam a tensão da atividade diária que desenvolviam na redação. Várias edições de jornais foram finalizadas no bar, considerado por muitos como uma extensão do Sindicato dos Jornalistas. Em época das assembleias que contavam com cerca de 300 jornalistas, o Boldo era frequentado antes e depois das reuniões”, diz a entidade, em publicação sobre a sua história.

*Com informações da CLDF.

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Fonte: BdF Distrito Federal

Edição: Flávia Quirino

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