Biden: Vitória sem Visão?

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FILE PHOTO: Democratic U.S. presidential candidate and former Vice President Joe Biden speaks during a campaign stop in Detroit, Michigan, U.S., March 9, 2020. REUTERS/Brendan McDermid/File Photo

É fácil dizer que os americanos não elegeram Joe Biden tanto quanto rejeitaram a re-eleição de Donald Trump. A vitória de Biden dificilmente foi o que se poderia chamar de decisiva. 

Por Darrin Burgess

The Prisma

 

Dos quase 150 milhões de votos expressos, ele saiu na frente pelo total de cinco milhões. O mapa eleitoral em 2020 se assemelha ao de 2016, com exceção de apenas cinco estados, cada um dos quais conseguiu escapar do Trump por apenas alguns pontos percentuais. (Georgia e Arizona, ainda não declarados, podem fazer esse total chegar a cinco.)

Em que estavam pensando os eleitores quando fizeram a troca? É uma pergunta que nos fazemos com interesse renovado a cada quatro anos, já que os resultados eleitorais para a presidência agora rotineiramente se dividem ao meio, e apenas um punhado de estados parece ser capaz de nos surpreender. Diz-se que os eleitores desses estados são “independentes”, como se fossem os únicos, e os candidatos à presidência gastam uma enorme quantidade de tempo e dinheiro cortejando seus favores. Para qualquer um que vive em um estado como a Califórnia, que entrega uma sólida maioria para o candidato democrata a cada ano eleitoral, pode parecer inacreditável que milhares de pessoas que vivem em estados chamados de oscilantes (“swing states”) como Wisconsin tenham votado em Barak Obama em 2008 só para votar no Trump em 2016.

Isso não deve ser surpreendente, entretanto, já que ambos os candidatos exploraram as mesmas preocupações primárias do eleitor.

Dizer que Trump teve sucesso há quatro anos, apelando para os instintos básicos da nação, é ignorar a angústia que ele reconheceu com sucesso. Suas posições de linha dura sobre imigração e comércio com a China foram apenas as soluções que ele propôs para um problema que ele não era nem mesmo capaz de identificar.

Esse problema não é um mistério. Os salários reais nos Estados Unidos vêm declinando há quarenta anos. As atividades remuneradas continuam a se consolidar nas grandes áreas urbanas onde o custo de vida é simplesmente absurdo. Mesmo antes da falência do “dotcom” há vinte anos, os sociólogos tinham começado a vislumbrar, em eventos aparentemente triviais como o declínio dos membros nas salas de boliche, uma sociedade que não era mais muito social, onde os indivíduos eram cada vez mais desprovidos de relacionamentos duradouros, que são cruciais para o senso de validade e autodeterminação de uma pessoa.

Diante de circunstâncias como essas, uma grande parte do eleitorado sempre encontrará conforto em soluções simplistas envolvendo imigração e tarifas de importação. Figuras políticas como Trump podem tomar isso como certo quando se propõem erguer muros entre países vizinhos e romper acordos internacionais.

Mas esses tipos de soluções não são os únicos que os eleitores aceitam. Diante de desafios semelhantes em 2008, a maioria dos americanos elegeu Barak Obama com a força de uma visão bastante otimista, embora simples, de harmonia internacional e políticas de imigração liberais.

Sempre se poderia dizer que ele explorou nossas ansiedades, assim como Trump, reconhecendo prontamente o declínio da influência e da fortuna americana. Ele também lisonjeou nossos egos com a noção algo perigosa do “excepcionalismo” americano, que diz que os Estados Unidos são a única nação indispensável do mundo. “Fazer a América grande de novo” poderia ter sido um slogan para qualquer uma das campanhas de Obama, embora sua visão do poder americano não fosse claramente beligerante.

É difícil imaginar que Obama teria tido sucesso em seu ambicioso programa de reforma da saúde, na medida em que o teve, sem sua capacidade de penetrar nos detalhes e identificar o núcleo de esperança que reside em cada problema – mesmo que ele tenha apelado para nossos instintos básicos no processo. Se Trump fosse de fato um executivo competente, é provável que ele também tivesse tido sucesso. Sua visão também era, de certa forma, de esperança.

Numa disputa contra Obama em 2008, Joe Biden era claramente incapaz de competir nesse aspecto. Em Trump este ano, ele teve a sorte de ter um adversário sobrecarregado de apoiadores desiludidos e políticas impopulares. No entanto, continua sendo um problema para Biden o fato de ninguém parecer ser capaz de identificar em que consistia sua campanha.

Uma nova geração de republicanos está trabalhando arduamente em um novo paradigma próprio, enquanto isso. Os senadores Marco Rubio, da Flórida, e Josh Hawley, do Missouri, entre outros, imaginam um novo tipo de ideologia conservadora que alia a justiça econômica para a classe trabalhadora com um apelo nostálgico a comunidades antiquadas. Sem dúvida, sua visão incorpora as habituais preferências conservadoras por redes de proteção social limitadas, regulação ambiental mínima, e outras políticas que causam muita aflição nos americanos progressistas.

No entanto, sua visão parece potencialmente convidativa para muitos eleitores. Ela toca na raiz de nossos problemas e oferece uma solução que soa ao mesmo tempo fortalecedora e sentimental.

Assim, enquanto os estadunidenses por enquanto parecem ter rejeitado o devaneio da transformação estadunidense proporcionada por Trump, uma revolução ainda pode esperar. E pode ser apenas uma revolução republicana, afinal de contas.

 

Darrin Burgess é um jornalista independente estadunidense que trabalha e mora em Paris

Tradução: Sara Vivacqua

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