Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto buscam apoio do

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Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto do Oeste da Bahia serão incluídas nas discussões da União Europeia sobre a lei que pretende proibir a importação de alimentos e produtos com origem em áreas desmatadas. 

Há mais de um século, esses povos tradicionais são responsáveis por dar continuidade às práticas de criação de rebanhos livres e plantio sustentável em terras de uso comum, com respeito aos processos de desenvolvimento da biodiversidade da região.

Representantes das comunidades apresentaram a membros do Parlamento Europeu dados sobre os impactos do agronegócio e do mercado internacional de commodities nos territórios, que fazem parte da pesquisa Na Fronteira da Ilegalidade, sobre desmatamento e grilagem no cerrado brasileiro.

O advogado popular Maurício Correia, da Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais (AATR), afirma que a situação do bioma ainda é pouco conhecida tanto internacionalmente como até mesmo no Brasil. O acolhimento da comitiva europeia aos pontos levantados é simbólico, segundo ele.

“Conseguimos apresentar a realidade do cerrado brasileiro, que perdeu metade da sua cobertura original nos últimos 50 anos. Nós estamos falando de 100 milhões de hectares. Foram desmatadas mais áreas de cerrado nos últimos 20 anos do que nos 500 anos anteriores. Infelizmente, essa situação crítica – de um bioma que é responsável pelo abastecimento de oito das principais bacias hidrográficas da América do Sul – denunciada no Tribunal Permanente dos Povos, é uma realidade muito desconhecida ainda.”

::Você sabe o que são as Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto?::

No próximo mês, de acordo com Correia, o Parlamento Europeu deve colocar em debate questões relacionadas ao desrespeito aos direitos humanos na produção de soja. O produto está na lista dos que devem sofrer sanções, caso seja aprovada a legislação que proíbe a compra de matéria prima produzida em regiões desmatadas.

Outros exemplos são carne bovina, madeira, café e cacau. A lista também inclui derivados das produções de áreas que passaram por devastação ambiental. Para fiscalizar o cumprimento das normas, a União Europeia vai usar alta tecnologia e monitoramento por satélite.

A reunião com o Parlamento Europeu deve ser o pontapé inicial para a criação de uma missão das comunidades do bioma e de organizações que compõem a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado a sede do Parlamento Europeu em Bruxelas no ano que vem.

Aliene Barbosa, representante da comunidade de Brejo Verde e Tarto, também esteve na reunião com os líderes internacionais. Em entrevista ao programa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato*, ela relatou que a sensibilidade demonstrada às questões das comunidades tradicionais foi além do que costumam demonstrar políticos do próprio Brasil. 

“Nós contamos um pouco da nossa história centenárias, que veio dos antepassados. Estamos aqui hoje vivendo, mas de uma forma muito violenta. Estamos imprensados. Com a chegada do agronegócio na nossa região, as comunidades foram recuando. Hoje estamos centralizados em uma pequena área, onde estamos lutando para preservar nossa cultura e o meio ambiente. Não há devastação, não há desmatamento onde essas comunidades vivem. Onde existe cerrado em pé aqui na Bahia é onde estão essas comunidades.”

Também representante das comunidades, Jamilton Magalhães, do Coletivo Fundo e Feche de Pasto, afirmou que o Parlamento Europeu abriu espaço para entender o que realmente vem acontecendo nas áreas de produção em grande escala do cerrado brasileiro. Ele alerta que o cenário atual quebra todo um ciclo de vida ancestral, que garante a preservação do meio ambiente.

“É muito interessante participar desse momento. Estávamos ali levando um pouco da realidade da nossa região para além do Brasil, falando de um modo de vida tradicional que nem sempre o povo brasileiro conhece.”

Ele ressalta que o reconhecimento internacional do território como área estratégica de produção de commodities, que eleva o PIB Brasileiro, esconde o descaso com os modos de vida tradicionais.

“Isso tem dado um certo status, mas não conhecem a realidade de onde se produz. O que está causando? O que vai causar no futuro? O encontro foi nessa linha de a gente expor, falar sobre como o nosso modo de vida está ameaçado.”

A reunião com o Parlamento Europeu contou ainda com a presença da Global Witness, organização internacional que trabalha pra coibir abusos aos direitos humanos internacionalmente. 

*Confira a entrevista na íntegra no tocador de áudio abaixo do título desta matéria


 

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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