Contêiner armazena peixe ilegal em frente à base do

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Moradores da fronteira com o Peru afirmam que o Exército brasileiro ignora a presença de um contêiner refrigerado que armazena pirarucu retirado ilegalmente da Terra Indígena (TI) Vale do Javari. Construída há pelo menos cinco meses, a estrutura está há cerca de 100 metros do 1º Pelotão Especial de Fronteira e a 50 metros de uma guarita militar.

O contêiner e as instalações militares ficam na pequena comunidade de Palmeiras do Javari, pertencente ao município de Atalaia do Norte (AM), no extremo oeste do Amazonas, divisa com o Peru. Além de habitantes civis, o povoado tem a presença fixa do Exército, que se instalou na região com objetivo de afirmar a soberania nacional na área fronteiriça.

O pelotão de fronteira em Palmeiras do Javari integra o 8º Batalhão de Infantaria de Selva, em Tabatinga, cujo comandante é o tenente-coronel Luiz Afonso Gomes de Sousa Filho.

A denúncia foi feita ao secretário municipal de assuntos indígenas de Atalaia do Norte, Jaime Matsés. Em viagem a Palmeiras do Javari, ele diz ter visualizado o contêiner. “Os peruanos cruzam a fronteira para pescar no nosso território. Tem muito invasor e não há nenhum controle”, afirmou. 

A reportagem  do Brasil de Fato procurou o Ministério da Defesa e perguntou se o Exército tem conhecimento da existência do contêiner, mas não obteve resposta até a publicação. Se houver retorno, o texto será atualizado. 

Pescadores ilegais atracam em área militar

Imagens obtidas com exclusividade pelo Brasil de Fato mostram o contêiner em Palmeiras do Javari, além de três barcos atracados no porto do povoado, em frente às instalações do Exército. As embarcações levam caixas de isopor, utilizadas para manter o peixe refrigerado durante as incursões ilegais na TI Vale do Javari, que podem durar semanas. As fotos foram feitas entre fevereiro e março de 2022. 



Barcos carregados de pirarucu atracam em porto de Palmeiras do Javari / Imagem cedida

O pirarucu é um dos principais itens no cardápio dos restaurantes da Amazônia peruana. No estado do Amazonas, só é permitido capturar a espécie por meio de manejo, sistema que exige restrições e controle rígido, como forma de evitar o rápido esgotamento dos recursos naturais. 

A caça e a pesca ilegais na TI Vale do Javari já foram exaustivamente denunciadas por indígenas, mas eles nunca receberam uma resposta à altura das autoridades brasileiras. Para documentar e denunciar as invasões, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) contratou o indigenista Bruno Pereira, que foi assassinado por pescadores ilegais junto com o jornalista Dom Phillips em junho deste ano. 

Pirarucu ilegal é transportado em aviões  

Perto de Palmeiras do Javari, está a pequena cidade de Angamos, em território peruano. Segundo a denúncia, o aeroporto do povoado é um ponto logístico importante no contrabando do peixe pescado na área protegida. De lá, os produtos seriam levados em voos comerciais até a cidade Iquitos no Peru, que tem cerca de 500 mil habitantes e é um importante centro consumidor do pescado ilegal. 

Veja na galeria:

Fotos tiradas em Angamos mostram pirarucus no chão do aeroporto e, depois, no interior de um avião de pequeno porte. Os peixes são transportados praticamente inteiros, alguns sem qualquer embalagem, em condições sanitárias precárias e sem nenhum medo de fiscalização. Nas imagens, dois pescadores conhecidos na região aparecem transportando os peixes. 

O pirarucu fica armazenado na frente do Exército

“O pirarucu fica armazenado na frente do Exército. O peixe é levado pelo rio Javari até o aeroporto de Angamos, pois eles sabem que lá [em Angamos] não tem nenhuma fiscalização. Esse peixe deve ir para Iquitos, Letícia [Na Colômbia] e outras cidades que não sabemos”, diz Jaime Matsés. 

Indígena dizem ter informado Exército 

Matsés afirma ter avisado oficiais do Exército sobre a existência do contêiner. Segundo ele, a informação foi repassada a militares que participavam da reunião da Comissão Externa do Senado em Atalaia do Norte (AM), realizada em 30 de junho deste ano. 

“Depois que eu fiz a denúncia, militares procuraram meus parentes na fronteira. Eles pediram que os indígenas apresentassem provas”, relata Matsés. 

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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