Em livro, ex-bolsonarista e parceiro do MBL conta como funciona as fake news

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Foto: DCM

O blogueiro e técnico em TI, Carlos Afonso, era um dos principais parceiros do Movimento Brasil Livre (MBL) no golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff e, inclusive, fez campanha para Bolsonaro em 2018. No entanto, rompeu com o movimento liberalóide e com o bolsonarismo, e comentou seus arrependimentos em entrevista ao DCM em 2019.

Na época, Afonso disse que “Se voltasse no tempo, teria votado em Ciro Gomes ou Fernando Haddad. Por mais que isso possa incomodar algumas pessoas de meu círculo de amizades. Hoje em dia eu prefiro um candidato de esquerda democrática a um de direita autocrática”.

Em julho de 2020, o blogueiro foi preso por suspeita de desvio de mais de R$400 milhões em impostos federais como parceiro do MBL. O movimento nega qualquer relação com o técnico em TI e afirmam que a denúncia do Ministério Público surgiu de perfis bolsonaristas com o apoio do vereador Carlos Bolsonaro.

Agora, Carlos Afonso, responde o processo em liberdade e está concluindo um livro sobre distorção de notícias e fake news. Ayan, apelido dele, comenta sobre o trabalho que ele fez para sites como JornaLivre e O Diário Nacional, páginas que eram relacionadas ao MBL e atacavam a esquerda.

O livro não apresenta só manchetes, e notícias, que Afonso fez, mas também as que conseguiu identificar no bolsonarismo e em sites de fake news. A ideia é de que seja um manual para entender esse fenômeno.

O livro, nomeado como “Manchetes do Inferno” tem como objetivo tornar público aquilo que ajudou a eleger Bolsonaro para o mais alto cargo da nação brasileira.

Ao deixar os setores da estrema-direita, Ayan começou a estudar o fenômeno da desinformação no mundo e identificou cinco padrões nessas páginas, com 94 desdobramentos.

“A divulgação desse conteúdo não é para que se produzam manchetes deste tipo. É para evitar que pessoas de boa-fé caiam em manchetes assim. Nessa fase, eu andava próximo a grupos que vivem consumidos por ódio. Hoje, meu interesse é na divulgação de meios para que esse tipo de material – focado especificamente em polarização animalesca – possa ser contido”, escreveu.

Ao abordar em seu livro as manchetes de veículos parceiros do MBL, Ayan discute os seguintes padrões: Esperança, Medo, Guerra Moral, Desmascaramento e Ridicularização. Em cada categoria, há subgrupos que se encaixam em manchetes específicas tratadas por esses sites de direita.

Além disso, Carlos Afonso, exemplifica com padrões de ataques que ele participo e, ainda, nomeia os inimigos desses sites que prestaram  serviços à extrema direita em seu estudo.

Como exemplo, ele cita caso de integrantes do movimento feminista:

“2.18. Exemplo do mal (‘os ataques ao STF ilustram a pior face do totalitarismo’, ‘a violência contra (x) mostra o que acontece quando radicais de (y) tiram a máscara de tolerância’, ‘a violência contra (x) é a mostra definitiva de quem são os verdadeiros fascistas’, ‘(x) dá mais um atestado de sociopatia ao ofender os brasileiros em ‘mensagem natalina’’); 2.19 Exposição de vítimas do mal (‘Campanha de ódio contra (x)s gera vítima: (y) sofre tentativa de assassinato’, ‘brasileiros que comemoraram mortes no presídio de Manaus são as principais vítimas da criminalidade’, ‘Sadismo absoluto: feministas tentam impedir que crianças paralíticas da AACD recebam doação’)”.

E também ataques abertos contra funcionários públicos, grevistas e esquerdistas:

“3.17. Esqueletos no armário (‘Juíza que prendeu manifestantes da greve já propagou mensagens de grupos golpistas’, ‘Será que serviam pipoca e miojo no avião presidencial de (x) e (y)?’); 3.18. Exposição de vergonhas (‘As capas vergonhosas de (x) e (y): Sérgio Moro não é time, é juiz’, ‘(x) fugiu, sim, para poder atacar impunemente’, ‘Áudio representa o striptease moral de (x)’, ‘O jogo sujo da Lava Jato continua: Duque delata sem provas’, ‘Pichação no Monumento às Bandeiras: arte de esquerda é sujar e cagar’); 3.19. Exposição de injustiças (‘A Justiça de (x) – (y), inocentada. Já (w), nem depois de morta’, ‘Funcionários estatais ganham 63,8% a mais do que funcionários privados que os sustentam’, ‘O problema não é o STF pedir indenização aos presos, mas sim desprezar o povo honesto mais uma vez’); 3.20. Limpinhos que são sujinhos (‘(x) disse ter sido assediada por tucanos, mas recusou oferta. É que o autor já tinha se vendido ao outro lado’, ‘Agora tudo faz sentido: o lambe-botas soteropolitano também está na lista de (x)’)”.

O livro está sendo escrito desde 2019 e está nos estágios finais de edição. Serão mapeados, em uma escala com 18 regras de desinformação e nove estratégias de “hackeamento” de discurso. O blogueiro espera que esses padrões não se repitam na comunicação política.

“Aqui vocês verão 94 padrões de manchetes sensacionalistas divididas em 5 categorias. Esse material foi originalmente composto entre 2016 e 2017, ou seja, bem antes de que eu me especializasse em métodos de gaslighting e outros de manipulação (não para usar a manipulação, mas para explicar como sair dela)”, explica.

E, por fim, completa: “Hoje em dia, não tenho mais qualquer interesse em produzir notícia. Meu foco é outro: reduzir o grau de caos informacional, motivo pelo qual hoje priorizo dinâmica social, teoria do seletorado, teoria dos jogos e métodos para neutralizar a desinformação. Entre eles, produzi duas séries sobre seitas políticas. O excerto que contém essas 94 manchetes é apenas uma parte de um material mais amplo que está sob revisão. Logo, em breve teremos novidades”.

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