Entenda o que mudou no Afeganistão após um ano de

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Há exatamente um ano, no dia 15 de agosto de 2021, o grupo ultraconservador Talibã retomou o controle político do Afeganistão. Essa volta ao poder só foi possível depois da retirada brusca dos militares dos Estados Unidos do país e da fuga do ex-presidente Ashraf Ghani para os Emirados Árabes Unidos. 

Em setembro do ano passado foi formando um Conselho de Líderes, similar ao que governou o país entre 1996 e 2001, para substituir o Conselho Superior para a Reconciliação, comandado por Abdulá Abdulá, que havia assumido o poder em agosto. O Conselho seria chefiado pelo mulá Muhammad Hassan Akhund, um dos fundadores do grupo ultranacionalista, num governo que seria provisório, mas se mantém até hoje.

Na primeira coletiva de imprensa concedida pelo porta-voz dos Talibãs, Zabihullah Mujahidem, 17 de agosto de 2021, ele assegurou que o grupo daria anistia política a todos os afegãos colaboradores com os EUA e outras forças ocidentais. No entanto, entre 15 de agosto de 2021 e 15 de julho de 2022, a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama) reportou 780 civis mortos, 160 execuções extrajudiciais, 178 detenções arbitrárias e 56 casos de tortura contra ex-funcionários do governo. 

Logo após a saída desastrosa das tropas estadunidenses de Cabul, centenas de jornalistas afegãos e correspondentes internacionais abandonaram o país. Segundo a ONG Repórter Sem Fronteiras, 43%  dos meios de comunicação afegãos foram fechados nos últimos três meses. “Do total de 10.780 pessoas que trabalhavam em meios afegãos em agosto de 2021, somente 4.360 se mantiveram até dezembro daquele ano”, reporta a ONG.

O Talibã assumiu um país com 38 milhões de habitantes e um PIB de US$ 19,2 bilhões (R$ 97,84 bilhões), de acordo com dados do Banco Mundial. Em 2001, o Afeganistão tinha 21,6 milhões de habitantes e um PIB de US$ 4 bilhões (R$ 20,38 bilhões).

Em 2020, ainda no processo prévio da retirada de tropas dos EUA, foram assinados os Acordos de Doha entre o Talibã e Washington, nos quais o grupo político se comprometia a respeitar a paz e os direitos humanos.

Outras potências mundiais, no entanto, negam-se a dar legitimidade ao novo governo. Apesar de se reunirem com representantes do novo governo, China e Rússia não reconhecem  formalmente a autoridade do Talibã no Afeganistão. 

Os 20 anos de Guerra no Afeganistão, iniciada com a invasão do território pelas forças dos EUA em 2001, deixaram cerca de 171 mil mortos, entre eles, 47 mil civis. Neste contexto, 9,2 milhões de afegãos vivem como deslocados internos e cerca de 55% da população afegã depende de algum tipo de ajuda humanitária para viver, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

“Uma das justificativas da invasão militar norte-americana era uma suposta reconstrução do país. Os dados mostram e os EUA reconhecem que nada disso ocorreu. Houve investimentos muito específicos que ajudaram a enriquecer uma elite afegã, que inclusive agora, abandonou o país”, comenta o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser.

O Talibã assumiu novamente o poder, em 2021, prometendo reconstruir e estabilizar o país, mas um ano depois, a realidade é outra.



Com a força das armas, o grupo ultraconservador Talibã se mantém no poder, mesmo prometendo um governo provisório para o Afeganistão / Wakil Kohsar / AFP

Direitos das mulheres

Em agosto do ano passado, o porta-voz dos Talibãs, Zabihullah Mujahid, afirmou que as mulheres seriam respeitadas dentro da lei islâmica. As mulheres serão muito ativas na sociedade do Islã”, disse. O novo governo transformou o ministério da Mulher no ministério da Propagação da Virtude e Prevenção do Vício.

Na prática, escolas de ensino fundamental foram fechadas e milhões de meninas impedidas de estudar. Em março, o ministério de Educação disse que as escolas para meninas seriam reabertas assim que fosse elaborado um novo plano pedagógico de acordo com a nova lei afegã.

As servidoras públicas foram orientadas a entregar seus cargos para serem ocupados por homens. Há um ano, grupos de pesquisa de afegãs cientistas receberam asilo político no México. 

Leia também: LGBTQs temem pela vida sob regime talibã: “Eles querem nos eliminar”

O acesso a espaços públicos também é controlado. Ainda no ano passado, foi publicado um decreto que determina que as mulheres só devem sair de casa quando estritamente necessário. Para deslocamentos de distâncias maiores de 78km, devem estar acompanhadas de homens. A entrada em parques também é limitada por gênero: três dias para as mulheres e quatro para homens.

No primeiro governo do Talibã, entre 1996 e 2001, mulheres eram obrigadas a usar burca, impedidas de estudar e trabalhar, e só podiam estar na rua acompanhadas de um homem de sua família.

Fome

Cerca de 80% da população afegã vive em zonas rurais, no entanto, após 20 anos de guerra e ocupação ilegal dos EUA, a fome voltou a ser uma realidade. 

Segundo o Programa Mundial de Alimentos, 23 milhões de pessoas, mais de dois terços da população do país, estão em situação de insegurança alimentar. Cerca de 1 milhão de crianças menores de 5 anos sofrem desnutrição prolongada. Em janeiro, as Nações Unidas lançaram um plano humanitário emergencial para arrecadar US$ 220 milhões por mês para enviar alimentos à população afegã. 

“Eu acho que não é possível manter essa lógica de que primeiro é preciso democratizar o país para depois ajudá-lo. É preciso separar as duas coisas, não adotar esse princípio estadunidense ou europeu de aplicar sanções, porque isso não dá certo. No primeiro governo, o Talibã ficou isolado da comunidade internacional e acolheu a Al Qaeda, não adiantou nada. Agora é necessário ter uma atitude humanitária, não uma atitude política”, defende Nasser.



Nas ruas as mulheres afegãs são obrigadas a cobrir todo o corpo com burcas, enquanto as apresentadoras de TV devem esconder o rosto / Wakil Kohsar / AFP

“Cemitério de impérios” ?

O Afeganistão chegou a ser classificado por alguns analistas como um “cemitério de impérios”, já que na sua história, em pelo menos três ocasiões potências estrangeiras tentaram invadir e dominar o país, mas saíram derrotadas. 

A primeira invasão documentada do Afeganistão foi realizada por Alexandre, o Grande em 330 a.C. Entre as cidades conquistadas encontrava-se Herat, no norte do país.

O Reino Unido tentou invadir o país três vezes entre 1839 e 1919, e pode-se dizer que falharam nas três vezes. Em 1919, o Reino Unido teve que deixar o Afeganistão e reconhecer a independência do país.

Também foi o caso da União Soviética, que invadiu o país de 1979 até 1989, na tentativa de transformá-lo numa república socialista, mas o Exército Vermelho acabou sendo derrotado pelo Talibã, criado nesse período, com apoio financeiro, logístico e militar dos EUA, para impedir a expansão do campo socialista.

E agora mais recentemente dos Estados Unidos, que abandonaram o país depois de 20 anos de “guerra ao terror”. 

:: Artigo | Os 20 anos da guerra ao terror levaram a um cenário de extremismo e violência ::

O professor Reginaldo Nasser discorda da leitura. “Eu diria que é mais um cemitério de poder político centralizado. Mesmo o Talibã sendo mais centralizado ele precisa estabelecer acordos com as comunidades tribais”, comenta. 



Quase duas décadas de conflito vitimaram civis, militares e insurgentes / Pedro Vó

Conheça a história

Talibã quer dizer “estudante” em afegão. O grupo surgiu entre os mujahidin, combatentes islâmicos, que enfrentaram a invasão da União Soviética no final da década de 70, porém sua fundação oficial ocorreu somente em 1994. Nesse período, os mujahidin, espécie de embrião do Talibã, receberam apoio financeiro e logístico dos Estados Unidos.

Em 1996, os talibãs ocuparam a capital Cabul e derrubaram o governo. Também executaram brutalmente um ex-presidente do país que governou com apoio soviético. Dois anos mais tarde, o regime tinha controle sobre 90% do Afeganistão.

Saiba mais: Entenda o que é o Talibã do Afeganistão e saiba quem está na liderança do grupo fundamentalista

Boa parte do financiamento vem da exportação de ópio e heroína. A Organização das Nações Unidas estima o faturamento com o comércio ilícito de drogas, apenas em 2018 e 2019, em mais de US$ 400 milhões, o que equivale a 60% da renda total do grupo 

Edição: Arturo Hartmann

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