Especialista afirma que incentivo ao ódio religioso é projeto

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O doutor em antropologia da religião Flávio Conrado considera que o Brasil tem mecanismos legais e democráticos para evitar que o ódio religioso domine decisões políticas. Praticante da fé evangélica, membro da comunidade batista e assessor de campanhas da Casa Galileia, ele falou sobre o tema em entrevista ao Brasil de Fato

Na conversa, o pesquisador trouxe elementos que permearam e permeiam a trajetória das igrejas protestantes no campo político nos últimos anos. Ele detalhou a radicalização de alguns setores evangélicos, que viram espaço na extrema direita e no bolsonarismo para ampliar poder e garantir influência.

“Nós costumávamos louvar o Brasil no sentido do sincretismo. Essa harmonia era atravessada por várias questões do preconceito religioso, mas era um discurso englobante. Agora, estamos diante de um discurso de supremacia, que quer antagonizar as religiões minoritárias e não englobá-las em um projeto de convivência harmônica”, alertou

Na conversa, Conrado ressaltou o potencial que espaços inter-religiosos têm para o enfrentamento de ideologias extremistas e para reverter o cenário de radicalização, preconceito e exclusão.

“É um projeto de parte da liderança evangélica no Brasil e até aqui tem sido bem sucedido. Mas a construção de outra visão, de outra perspectiva da relação com a política vai também aparecer. Essa ação – que no campo da religião a gente coloca no registro do profético –  o anúncio de uma outra possibilidade vai se tornando visível.”

Leia os principais pontos da entrevista abaixo.

A desvalorização do sincretismo

“Nós sabemos que há esse histórico no Brasil de sincretismo e relações entre as religiões diversas que foram se encontrando na formação do país, de matriz africana, espiritualidades indígenas, fé católica, expressões do protestantismo. 

Essas relações sempre foram atravessadas por certo preconceito e, muitas vezes, certa perseguição. Essa relação com o sincretismo revela, ao mesmo tempo, uma violência que atravessa essa história de diferentes maneiras e níveis. É uma discussão que já está posta e bem consolidada na pesquisa no nosso país. 

Os evangélicos também participaram desse processo, numa frente pela laicidade do estado, a partir dos anos 1930 participam da política mais ativamente em defesa da laicidade do estado. Mas também sendo perseguidos em alguma medida e em alguns contextos, desenvolvendo também um discurso de que era necessário defender a laicidade e a liberdade religiosa por ser minoria, por estar nesse contexto de minoria.

Você tem (já nessa época) um esforço de construir relações inter-religiosas. O próprio estado brasileiro iniciou uma política de promover essa construção de políticas públicas, de pensar os direitos humanos e a diversidade religiosa, por conta exatamente da intolerância. Você tem vários comitês, comissões, conselhos, frentes. Já é parte da nossa história recente e é muito importante porque vem denunciando e trabalhando para prevenir, enfrentar e combater grupos extremistas. 

Esses grupos extremistas estão em diversos contextos, mas, recentemente, estão no contexto evangélico e cristão onde se expressam de maneira mais violenta, às vezes simbolicamente e às vezes até às vias de fato, com a destruição de terreiros e até de igrejas católicas. Nós percebemos que há um acirramento das relações. Algo que é eventual, pontual na história do Brasil, se torna mais corriqueiro.”

A demonização de outros credos como política

“É importante lembrar que não é a maioria dos evangélicos e das igrejas que atentam e demonizam outras religiões. Alguns pastores, lideranças e igrejas colocaram isso como parte de seu etos de relação com outras religiões, em uma competição de um mercado religioso. Construir essa ideia de inimigo, um inimigo que é importante vencer. 

É uma lógica que, não era desconhecida  das outras religiões cristãs, mas era minimizada, não era enfatizada como estratégia missionário ou evangelizadora. Esse imaginário da demonização de outras religiões é uma prática do cristianismo, mas não era enfatizado na medida em que passou a ser enfatizado por determinadas lideranças e igrejas levando alguns grupos e pessoas a cometer atos de discriminação, postar preconceitos nas redes sociais e ir para uma violência que é mais física. 

É preciso compreender esse contexto. Por um lado, há um esforço de teólogos e teólogas de pensar a relação com as outras religiões em outro registro, que não o registro da demonização e da competição, mas sim da cooperação e do diálogo religioso. Mas ao mesmo tempo, você tem alguns grupos que passaram a dar mais ênfase a esse elemento de enfrentamento, de combate, competição, de disputa, para se colocar no espaço público.

Aí entra a estratégia para instrumentalizar o voto evangélico. De fato, estamos diante de um debate muito sério. Isso afeta as nossas relações interpessoais, na medida familiar, nas relações comunitárias, nos bairros, nas comunidades. Estamos falando de um espaço público que passa a ser permeado por um discurso de intolerância religiosa que não estava presente – ou estava muito pontualmente presente – na nossa história recente.”

A divisão normalizada

“Isso é parte de um projeto de poder, que não apenas um poder político, é o poder cultural também. É muito importante nós olharmos para o discurso que vem sendo apresentando nesses últimos anos. Um discurso que estava presente, anteriormente, residualmente até com outros significados. 

Frases como “O Brasil é do Senhor Jesus”, “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” e outras expressões do campo evangélico, não só pentecostal, que eram residuais, mas por conta do projeto de poder político, se tornaram também um projeto de supremacia cultural cristã.

É curioso, porque esse discurso dos evangélicos, associado a um projeto de poder político, vem assumindo não apenas um discurso de supremacia da religião evangélica, mas ele fala em nome dos cristãos. 

O Brasil é um país cristão, não se fala que o Brasil vai se tornar um país evangélico. Quando se aciona esse discurso da maioria contra a minoria, essa oposição aciona essa identidade que engloba os católicos também. 

Antes, o discurso cristão era englobante, mas para projetar uma harmonia. O Brasil é um país católico, mas é um Brasil sincrético. Nós costumávamos louvar o Brasil nesse sentido. Essa harmonia era atravessada por várias questões do preconceito religioso, mas era um discurso englobante. Agora estamos diante de um discurso de supremacia, que quer antagonizar as religiões minoritárias e não englobá-las em um projeto de convivência harmônica. 

É uma diferença importante para pensarmos. Insisto que é um discurso que aciona essa supremacia cristã porque é um discurso de um projeto político. Não é simplesmente que os evangélicos estão nas periferias e outros espaços de cima abaixo da sociedade. Isso é fato, a gente acompanha esse crescimento, mas é mais do que isso. É um projeto de poder político. 

O encontro com o bolsonarismo

Esse discurso de supremacia cristã acompanha esse projeto político. Se ele vai ser levado  a cabo nos próximos anos, depende das forças políticas que vão se desenhando. Importante lembrar que essas forças políticas evangélicas também estavam aí em governos anteriores. Elas vão se plasmando de acordo com as oportunidades.  

O que vemos hoje é que a direita ofereceu para essas forças políticas uma oportunidade que não existia. Não havia essa possiblidade exatamente pelo caráter de ênfase na laicidade que colocava restrições. Mas a direita, com esse discurso nacionalista, que eles chamam de patriótico, oferece uma possibilidade de um novo nível de construção de discurso, que é político e cultural, de reconstrução de uma ideia de nação. 

A pátria brasileira é cristã e as políticas públicas precisam ser moldadas também por esse ideário, por esses valores cristãos, em uma chave conservadora, não em uma chave plural. Porque o cristianismo é plural e o evangelicanismo, o protestantismo brasileiro também são plurais. É, de fato, um discurso que vem dessa última vaga de extrema direita bolsonarista e que sequestra essa ideia de que os evangélicos ou o campo cristão gostariam de impor uma hegemonia cultural e de imposição de certos valores conservadores. 

A importância do diálogo

Há vozes conservadoras no campo evangélico, que estão de acordo que o Brasil é plural, que precisa respeitar a laicidade, tolerar outras religiões e promover, inclusive, a convivência. Em Religiões pela Paz e outros grupos inter-religiosos, há pessoas conservadoras, batistas, presbiterianas, metodistas. 

Isso mostra que é possível que organizações cristãs e pessoas, igrejas e lideranças conservadoras reconheçam que o Brasil é um país plural e convivam com outros núcleos, religiões espiritualidades em uma chave laica e respeitosa. 

A construção de outra visão, de outra perspectiva de ter uma relação com a política vai também aparecer. Eles também vão ver pessoas, lideranças e grupos do campo evangélico e cristão que se opõem a isso e se posicionamento contrários a isso. Essa ação – que no campo da religião a gente coloca no registro do profético – que é o anúncio de outra possibilidade, vai se tornando visível. 

O que é desejável acontecer num contexto democrático é que essas outras vozes comecem a ser ouvidas. Dado o desenho institucional democrático que nós temos esses elementos radicalizados vão ter que prestar contas a lei. Porque não é possível que tenhamos o ódio religioso, a intolerância religiosa, a violência religiosa sem a punição e a condenação como prevê a lei brasileira. 

Se a sociedade brasileira continuar nesse registro democrático de aprofundar o caráter laico do estado a gente vai poder corrigir essa instrumentalização da religião. Existem forças que estão interessadas nessa instrumentalização e existem outras forças que não estão. 

Confio muito que estamos vivendo no Brasil o agravamento dessa relação entre religião e política, mas vamos conseguir superar porque temos mecanismos para superar isso e também temos muitos segmentos no campo cristão que estão interessados na convivência pacífica, democrática, plural e estão engajadas em ações iniciativas e diálogos de cunho inter-religioso. 

Nós vemos uma esperança e um caminho para superar essa radicalização. Esperamos que nessas eleições possamos de alguma maneira dar o recado nas urnas para esses segmentos, que estão querendo levar a democracia brasileira para um caminho de radicalização violenta, de acirramento do ódio e do conflito em vez de trabalhar pela paz, pela justiça e pela equidade.

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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