Morte de Mikhail Gorbachev: legado do último líder

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Símbolo de um período histórico de transição, com o fim da Guerra Fria e a dissolução da URSS, Mikhail Gorbachev continua gerando controvérsia sobre o seu legado, e a discussão sobre os impactos das suas políticas gera ecos na Rússia atual.

Na última quinta-feira (1º), o presidente russo, Vladimir Putin, compareceu ao Hospital Clínico Central de Moscou para se despedir do último líder soviético, que morreu na segunda-feira, 30 de agosto, aos 91 anos de idade. 

Putin, no entanto, não esteve presente no funeral do ex-presidente da União Soviética, realizado neste sábado (3). O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, atribuiu ainda na sexta a ausência do presidente à agenda de trabalho.

Anteriormente já haviam sido descartados os rumores de que o ex-líder soviético fosse homenageado com as honras de um funeral de Estado. Peskov esclareceu que a despedida de Gorbachev aconteceria na verdade com alguns “elementos” de um funeral de Estado.

Em meio a um cenário de conflito militar com a Ucrânia e um profundo isolamento em relação ao Ocidente, a Rússia de Vladimir Putin não poderia ser uma imagem mais antagônica ao que representou o período de Mikhail Gorbachev. Apesar de uma distância temporal de mais de 30 anos, a ponte que conecta a era Gorbachev com a atual Rússia de Putin possui apenas o hiato da presidência de Boris Yeltsin, nos anos 90.

É emblemática a posição de Putin, que ainda em 2005, disse que a dissolução da URSS foi a “maior catástrofe geopolítica do século XX”. Em 2015, ele afirmou que, como resultado do colapso soviético, “o povo russo acabou sendo o maior povo dividido do mundo”.

Já no documentário “As Entrevistas de Putin”, do cineasta Oliver Stone, de 2017, o atual presidente russo critica abertamente seu antecessor político “por não entender quais mudanças eram necessárias para mudar o sistema, mas salvar o país”. No mesmo documentário, Putin culpa Gorbachev por não “fixar no papel” a promessa da Organização do Tratado do Atlântico Norte  (Otan) de que a aliança militar não se expandiria para além das fronteiras da Alemanha oriental.



Presidente dos EUA, Ronald Reagan (à direita), e o presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, assinam o tratado das Forças Nucleares nos anos 1980 / Reuters

Não é de se estranhar que a guerra em curso na Ucrânia tenha como pano de fundo justamente a atuação da Otan no espaço pós-soviético e a influência da Rússia nas ex-repúblicas da URSS. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, o jornalista e escritor José Arbex Júnior, que foi correspondente em Moscou durante a era Gorbachev, conta que o cenário político do fim da URSS era marcado por uma profunda disputa de poder dentro da cúpula do poder, com “muitas forças internas se digladiando em defesa dos seus próprios interesses com objetivos que não tinham nada a ver com a preservação do socialismo”. Uma dessas forças era a ala militar, que defendia ações firmes contra a independência de repúblicas que queriam se separar do bloco soviético. 

Ao fazer uma analogia com o cenário geopolítico no espaço pós-soviético de hoje, Arbex Júnior observa que Putin atualmente “expressa o mesmo Estado militar que nos anos 90 queria ir pra guerra, se necessário, para não entregar a União Soviética”. Por outro lado, segundo ele, Boris Yeltsin “representa um outro setor do establishment russo mais voltado para concessões totais ao imperialismo estadunidense e aos Estados europeus”. 

Nessa comparação histórica, o jornalista aponta que Mikhail Gorbachev, por sua vez, tinha a grande ambição de “criar um Estado democrático de direito” como elemento fundamental de garantia de um bem-estar social, sem deixar de conciliar esses conjuntos com a ideia de uma economia socialista.

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Nesse contexto, Arbex Júmior destaca que a visão de Gorbachev como alguém que contribuiu para o fim da Guerra Fria e a derrocada do bloco socialista, muito celebrada no Ocidente, é muitas vezes apropriada de maneira equivocada pelo liberalismo. 

“Os liberais se apropriam de um Gorbachev que nunca existiu, porque não havia um Gorbachev liberal, nunca houve. O Gorbachev nunca abriu mão do Estado como elemento fundamental para assegurar as condições de uma sociedade democrática. Tanto que ele falava sempre em um ‘Estado de direito’. Quer dizer, o Estado deveria ser o garantidor de um equilíbrio social e político”, afirma. 

Popularidade no “limbo” do espectro político 

O historiador Rodrigo Ianhez, que mora há mais dez anos em Moscou, observa que os objetivos de Gorbachev eram muito ambiciosos para serem implantados em um período muito curto. Ao Brasil de Fato, Ianhez diz que suas políticas foram realizadas “com muito improvisação”, o que ajudou a colapsar o bloco soviético e causar a profunda crise que atingiu a Rússia nos anos seguintes. 

Desta forma, o historiador aponta que a popularidade de Gorbachev hoje acabou ficando deteriorada, não sendo bem vista na Rússia e em boa parte do espaço pós-soviético.

“Por um lado, para aqueles que se posicionam mais no espectro liberal e contrários ao período soviético, a figura a que mais se associam é Boris Yeltsin, que já vinha desde o final dos anos 80 comprometido com essa transição para uma economia de mercado. Então tende-se a atribuir a Yeltsin uma maior responsabilidade”, afirma. 

Por outro lado, Ianhez destaca que, especialmente as gerações mais velhas, que viveram o período de estagnação da era Brejnev, quando os índices sociais atingiram o seu pico na URSS, culpam Gorbachev pelo final da União Soviética. “Ele tem ainda essa aura de que seria um ‘traidor’ por justamente ter vindo da secretaria-geral do partido”, completa. 

Isso é refletido diretamente na reação do atual chefe do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, à morte do ex-presidente soviético nesta semana. O líder comunista afirmou que a chegada de Gorbachev ao poder “levou o país à tragédia”. 

“O primeiro crime de Gorbachev é que ele herdou uma grande potência que era reconhecida no mundo. Estávamos na vanguarda em dezenas de áreas. Infelizmente, com o advento de Gorbachev, tudo isso foi traído. Ele também traiu o governo soviético”, disse Zyuganov. 

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O jornalista José Arbex Júnior, que chegou a entrevistar o último líder soviético em 1992, rechaça a ideia de que o ex-líder teria sido uma espécie de “traidor” dos ideias soviéticos. 

“Seu principal legado é que ele lutou para instituir na União Soviética um estado de direito democrático, se manteve socialista até o final da vida. Nunca declarou adesão nenhuma ao capitalismo e acreditava ser possível ter uma economia socialista em um estado democrático de direito. Não conseguiu”, destaca. 

O ex-correspondente em Moscou analisa que, em um cenário de decadência econômica e política que já estaria instaurada no regime, Gorbachev buscou se amparar na opinião pública pela via da abertura e da democracia. No entanto, a ausência de períodos realmente democráticos ao longo da história do Império Russo e da União Soviética teria gerado uma “cultura não-democrática” resistente a uma política de diálogo e abertura.  

“Como você vai criar uma cultura democrática nesse contexto? Ele tentou, mas eu acho que era impossível. E qual era a alternativa? Mais repressão, mortes”, completa. 

O jornalista brasileiro acrescenta ainda que o dilema entre a solução democrática e a autoritária que Gorbachev enfrentou traz importantes lições, inclusive para o Brasil. 

“Se tem uma coisa que a história russa mostrou para nós é que a opção por uma concepção não democrática do Estado de direito e não democrática de sociedade vai levar apenas ao prolongamento de outras ditaduras por outros meios. Então eu acho que é isso que o legado do Gorbachev mostra, que não existe caminho fácil para o Estado de direito, não existe caminho fácil para a democracia, mas é a única possibilidade. A tentação autoritária não é uma possibilidade, ela vai gerar novas catástrofes”, completa. 

*colaborou Serguei Monin

Edição: Arturo Hartmann

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