Na região de Canudos, mulheres se organizam para gerar renda

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Apesar de a maioria das pessoas acreditar que a caatinga é um grande deserto sem vida, esse bioma exclusivamente brasileiro é rico em biodiversidade. Nele existem diversas frutas que só nascem ali, como o umbu, o maracujá da caatinga e a seriguela. Por serem desconhecidas dos grandes mercados consumidores, algumas dessas frutas se encontram hoje em risco de extinção.

São as comunidades tradicionais da região da caatinga que têm trabalhado para garantir que as futuras gerações conheçam essa diversidade alimentar da nossa região. É sobre esse tema que conversamos com Denise Cardoso, primeira mulher a presidir a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COOPERCUC). A organização trabalha com os frutos da caatinga, preservando e recuperando áreas desse bioma, além, de produzir doces, geleias e até cerveja com os frutos.

Brasil de Fato Bahia: Denise, muitos frutos da caatinga, inclusive o umbu, estão ameaçados de extinção. A que podemos atribuir esse processo de desaparecimento? E qual a importância de tentar pará-lo?

Denise Cardoso: Toda essa relação de valorização da caatinga é importantíssima, desde as comunidades, as universidades, até o governo. Tudo isso traduz muito do que é necessário fazer pela valorização da caatinga, assim como todos os biomas. Com muitas outros, o umbu tem entrado nesse ranking de desaparecimento, e isso se dá justamente pela não valorização, pelo não reconhecimento da importância de manter a caatinga em pé, de manter o bioma preservado. Imagino eu que se houvesse um trabalho diferente, de toda a relação de educação para as comunidades, para as pessoas, de valorização através das políticas públicas por parte do governo, de estudos realizados pelas universidades de forma recorrente, que tudo isso chegasse diretamente nas comunidades, com certeza, teríamos uma estrutura diferente.

Você acredita que a popularização desses frutos, como o umbu e o maracujá da caatinga, utilizados pela COOPERCUC, pode ajudar a conter o processo de desaparecimento? Como essa popularização pode ser promovida?

Eu acredito que isso ajuda com certeza. Há na nossa região todo um trabalho de preservação feito pelas comunidades tradicionais, principalmente as comunidades de fundo de pasto, que ajudam muito nessa preservação do umbuzeiro, nessa preservação da caatinga. Claro, também porque através do umbu, do maracujá da caatinga e diversas outras frutas muitas famílias têm uma geração de renda. Então isso ajuda tanto pelo fato de obterem a geração de renda, como pelo fato de as famílias precisarem da caatinga em pé para criação dos animais, para toda essa relação de produção e de bem estar. Acredito muito nisso, na popularização. A gente fortalece todo esse processo de transformação através do cooperativismo, através da geração de renda. E uma das coisas que também é visível é que o fato de o agricultor e a agricultora enxergar o seu produto na prateleira ou na televisão faz com que, aos pouquinhos, essa lógica da valorização aconteça.

E, além disso, a cooperativa tem feito um trabalho de recomposição de algumas áreas através do projeto AgroCaatinga. Assim a gente tem recuperado áreas totalmente degradadas. Hoje, a gente já tem 30 áreas de aproximadamente meio hectare cada, que somam mais de 10 hectares já recuperados de caatinga através de sistemas agroflorestais. Então a gente consegue tanto ter a produção, pra cooperativa, quanto recuperar áreas que estão em processo de degradação. 

Esses frutos costumam ser consumidos por quem mora na região? Estão presentes nas feiras livres, por exemplo? Ou também entre a população local é preciso popularizar o consumo?

Inicialmente, quando começou o trabalho da cooperativa, a gente não conseguia achar nem os produtos, nem as frutas na feira, mas hoje, sim. Hoje, por exemplo, o maracujá da caatinga que era tido como uma fruta que era pra ser tirada da propriedade porque não servia pra nada, hoje as pessoas plantam e cuidam dela, porque gera renda e porque se tornou importante para a família. Aí levam pra feira, vendem na cooperativa. Então, tem toda uma relação mesmo de popularização em torno dessas frutas. Elas estão tanto na feira livre quanto nos supermercados agora. Um grande exemplo disso, nesse ano de 2022, é uma das primeiras experiências da COOPERCUC na venda de umbu in natura. Nós vendemos 5.000 kg de umbu in natura pra uma grande rede de supermercados. Isso tem uma relação de valorização importantíssima para as comunidades, importantíssima para o bioma caatinga.

Além do valor nutricional, esses alimentos também têm um valor cultural, não é? Você pode falar pra gente um pouco sobre esse valor cultural? Qual o papel desses frutos nas tradições da caatinga?

Olha, em relação ao valor nutricional a gente nem questiona mais, né?! Porque já é um fato dado. E o valor cultural também é incrível. E, aos pouquinhos, o que estava se perdendo a gente também vem resgatando. Hoje o umbu na nossa região significa a busca pela tradição, pela cultura. Para as pessoas que moram fora, enxergar o produto lá onde elas estão também traz essa relação de valorização cultural. E também essa vivência com o alimento. A gente traz muito isso, essa relação afetiva com o alimento, que resgata toda a cultura, todo o processo tradicional em torno das frutas.

Como é a experiência da COOPERCUC no processo tanto de envolver agricultoras camponesas quanto de salvaguardar a existência dos frutos e o conhecimento sobre eles?

Olha, a COOPERCUC nasce muito da necessidade, da vontade dos agricultores, principalmente, das agricultoras que começaram, nas suas cozinhas, a transformar o umbu em um produto que poderia ser consumido por mais tempo, porque a safra do umbu é curta. Então, tudo isso era parte de um processo de construção social que estava sendo feito. E, aos pouquinhos, foi se fortalecendo. Com a criação da COOPERCUC, em 2004, a gente sempre foi desde o início uma maioria de mulheres. Hoje mais de 70% das cooperadas são mulheres, e a gente tem uma relação muito forte em torno desse beneficiamento, em torno da valorização da caatinga. Então, todo o trabalho de transformar o umbu em geleia, em doce, em ver esse produto sendo exportado, em ver esse produto sendo levado pros grandes centros, em ver as nossas crianças se alimentando desse produto nas escola e chegar em casa, contar pra mãe e pro pais que se alimentou da geleia que foi feita a partir da fruta que é coletada por essas agricultoras traduz pra gente toda uma relação importantíssima do trabalho feminino, do trabalho organizado através da cooperativa.

Fonte: BdF Bahia

Edição: Lorena Carneiro

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