O Reino Unido apoiou o golpe na Bolívia para obter vantagem na exploração de lítio, revela Declassified UK

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Foto: Reuters

(Por Vivianne de Castilho Moreira)

“Foi um golpe contra o índio, a população e pelo lítio”, afirmou Evo Morales ao portal jornalístico Forum, no dia 04 de abril de 2020, ao falar sobre o golpe perpetrado na Bolívia que sucedeu à sua vitória nas eleições presidenciais do ano anterior. Na ocasião, o presidente eleito enfatizou o papel dos EUA no processo que culminou com a sangrenta ruptura democrática no país sul-americano. Documentos revelados pelo portal de jornalismo investigativo britânico Declassified UK, graças ao notável trabalho do jornalista Matt Kennard, mostram agora que os EUA não estavam sozinhos na empreitada, e que o Reino Unido teve também papel decisivo no golpe. O motivo permanece o mesmo: o cobiçado lítio.

Em 10 de novembro de 2019, depois que o chefe do exército pediu sua renúncia, o presidente recém eleito da Bolívia, Evo Morales, deixou o cargo, tendo sido também obrigado a deixar o país. Um relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA), baseado em indícios frágeis e desmentidos posteriormente, erguia suspeitas sobre a lisura do processo eleitoral que consagrou Morales presidente já no primeiro turno das eleições, e foi usado para dar ares de legitimidade ao golpe. Morales havia obtido 55% dos votos no primeiro turno, com ampla distância do segundo colocado Carlos Mesa, que não logrou alcançar 29%.

Um desdobramento do golpe foi o entronamento da então senadora Jeanine Áñez na cadeira de “presidenta interina”. Protestos contra o golpe alastraram-se pelo país e foram implacavelmente reprimidos, deixando um saldo de 18 manifestantes assassinados.

No dia14 de novembro, Ágñez baixou o Decreto 4.078, que concedeu ampla imunidade aos militares para quaisquer ações tomadas na “defesa da sociedade e manutenção da ordem pública”. No dia seguinte, 15 de novembro, as forças militares bolivianas atiraram oito manifestantes na cidade de Sacaba, ferindo-os de morte. uma semana depois, em 21 de novembro, as forças do regime assassinaram outros 10 manifestantes no bairro de Senkata, próximo à capital La Paz.

A despeito da violência brutal, que foi condenada por grupos de direitos humanos, a embaixada britânica em La Paz apressou-se em apoiar o sangrento regime que se impôs na Bolívia, revelam os documentos obtidos pelo Declassified UK. Dias depois, lembra o Declassified UK, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido divulgou um comunicado dizendo: “O Reino Unido parabeniza Jeanine Áñez por assumir suas novas responsabilidades como presidente interina da Bolívia (…). “Saudamos a nomeação da Sra. Áñez e sua intenção declarada de realizar eleições em breve”. O Secretário de Relações Exteriores, Dominic Raab, completa: “Esperamos que a atual crise na Bolívia possa ser resolvida de maneira rápida, pacífica e democrática. O povo boliviano merece ter a oportunidade de votar em eleições livres e justas”. Mas Raab e o Ministério das Relações Exteriores não foram tão ágeis em se pronunciar quando as forças do novo regime perpetraram os massacres de Sacaba e Senkata na semana seguinte, relembra o Declassified UK.

O portal de jornalismo investigativo britânico teve acesso a uma lista de projetos para um programa do Ministério das Relações Exteriores na Bolívia chamado “Frontline Diplomatic Enabling Activity” <Linha de frente de atividade de capacitação diplomática>, que o governo do Reino Unido descreve como um “pequeno pote de dinheiro que [embaixadas] recebem e têm autoridade para despender em projetos de apoio às atividades [das embaixadas]”.

Em março de 2020, quatro meses após a queda de Morales, o novo regime passou a implementar uma série de novas iniciativas “com o Reino Unido como parceiro estratégico”, observam os documentos obtidos pelo Declassified UK. Naquele mesmo mês, o embaixador da Grã-Bretanha durante o golpe, Jeff Glekin, ofereceu um vislumbre dos interesses do Reino Unido envolvidos no apoio ao novo regime. Glekin falou à imprensa boliviana sobre a British Week, que pela primeira vez trazia 12 empresas britânicas ao país.
Segundo ele, “Muitos estão em busca de novos mercados no mundo e a Bolívia pode ser uma oportunidade de crescimento”. E continua: “Devido às mudanças políticas na Bolívia, percebe-se um ambiente mais aberto ao investimento estrangeiro e acredito que isso abrirá novas portas para empresas que desejam compartilhar sua tecnologia, seus produtos e fazer alianças com diferentes empresas”.

Nos documentos vistos pelo Declassified UK, um número desproporcionalmente elevado de projetos da embaixada do Reino Unido se concentrou na cidade oriental de Santa Cruz, que era o centro da oposição ao governo de Evo Morales. As palavras de Glekin reforçam o diagnóstico: “O governo anterior não era muito favorável ao investimento estrangeiro. Então, com as mudanças que veremos, será mais fácil entrar no mercado e fazer negócios. As empresas que virão são de diferentes partes da Grã-Bretanha e de vários setores. São empresas modernas que estão fazendo coisas inovadoras e querem entrar no mercado e compartilhar seus serviços e produtos na Bolívia.” E arremata: “A demanda por lítio está crescendo e a Bolívia deve aproveitar essa oportunidade”.

 

Os depósitos

A Bolívia tem a segunda maior reserva de lítio do mundo. Trata-se de um metal usado na fabricação de baterias e que tem se tornado, por isso, cada vez mais cobiçado pela ascendente indústria de carros elétricos.

De sua parte, o governo do Reino Unido estima que a tecnologia da bateria de lítio é uma prioridade para sua “estratégia industrial”. Em junho de 2019, ele anunciou que estava investindo £ 23 milhões no “desenvolvimento de baterias para carros elétricos”.

Segundo as estimativas do governo britânico, informa o Declassified UK, a “América do Sul detém 54% dos recursos mundiais de lítio, que são cada vez mais procurados para fabricar baterias para veículos elétricos e programas de diversificação de energia”. E completa: “O Reino Unido pretende ter uma indústria de baterias próspera e sustentável, que se traduziria em uma oportunidade de £ 2,7 bilhões … e nossas parcerias bilaterais são essenciais para garantir isso”.

Em fevereiro de 2019, o governo de Evo Morales havia escolhido um consórcio chinês para ser seu parceiro estratégico em um novo projeto de lítio de US $ 2,3 bilhões que se concentraria na produção dos salares Coipasa e Pastos Grandes. Salares são planícies salinas. É nesses lugares que o lítio pode ser encontrado.

Depois do golpe, porém, o ministro golpista da mineração pôs em questão a continuidade do acordo firmado por Morales. Não há de ser por acaso que justamente Coipasa e Pastos Grandes eram alvos do interesse da embaixada do Reino Unido. Um projeto implementado em 2019-2020, que teve financiamento do governo britânico 2019-20, buscou “otimizar a exploração e produção de lítio da Bolívia (nos salares Coipasa e Pastos Grandes) usando tecnologia britânica”. Após o golpe, este projeto foi imediatamente levado adiante.

O resumo do projeto foi autorizado pelo seu principal financiador – o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – em 25 de novembro de 2019, duas semanas após o golpe e poucos dias após o massacre de Senkata.

O projeto obteve aprovação total para financiamento de $ 100.000 semanas depois, em meados de dezembro de 2019.

O BID disse ao Desclassified: que a “implementação das atividades [de doação] são conduzidas em estreita coordenação com as autoridades governamentais designadas e suas equipes técnicas”. Nesse ponto, sua “coordenação estreita” teria sido com o regime de Áñez.

 

Aplicações de satélite

O Declassified UK informa também que embaixada britânica em La Paz forneceu £ 5.000 para esse projeto de lítio em 2019-20, mas que não logrou obter do Ministério das Relações Exteriores resposta à pergunta se esses fundos teriam sido desembolsados ​​após o golpe de novembro de 2019.

Os documentos obtidos pelo Declassified UK informam que objetivo do projeto era “projetar e implementar um aplicativo baseado em dados de satélite apto a otimizar a exploração e exploração de grandes / melhores fontes de lítio nos salares Coipasa e Pastos Grandes na Bolívia”.

O Foreign Office observou que o projeto seria implementado pela Satellite Applications Catapult <Catapulta de Aplicativos de Satélite>, uma organização com sede em Oxford destinada a “ajudar as organizações a aproveitar o poder dos serviços baseados em satélite”.

A empresa, que recebe cerca de um terço de seu financiamento do governo do Reino Unido, não respondeu às perguntas do Declassified UK sobre o projeto da Bolívia. Mesmo assim, o portal jornalístico descobriu que dois dias após o BID dar sua aprovação final ao projeto, em 19 de dezembro de 2019, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido transferiu £ 33.220 para a Satellite Applications Catapult, em um pagamento alocado na rubrica “gasto do programa”.

O departamento se recusou a informar ao Desclassified se esse financiamento era para o projeto de exploração de lítio na Bolívia. O BID, por seu turno, limitou-se a informar que a “coordenação com a Embaixada Britânica tem sido particularmente cooperativa na busca de sinergias”.

 

Seminário internacional e o papel da consultora Watchman

Em março de 2020, quatro meses após o golpe, a embaixada britânica em La Paz fez uma parceria com o Ministério de Minas do regime para organizar um “seminário internacional” para mais de 300 funcionários do setor extrativo global. A empresa britânica Watchman foi levada pela embaixada do Reino Unido para fazer a apresentação principal e delinear as “soluções criativas” que havia implementado na África para atrair as comunidades locais com projetos de mineração.

Os documentos do Foreign Office obtidos pelo Declassified UK observam: “Watchman UK e outras consultorias estão agora alinhadas para oferecer serviços neste importante campo para uma série de empresas de mineração da Bolívia que desejam obter soluções ganha-ganha para suas controvérsias com habitantes indígenas e cidades localizadas na área de influência de suas atividades”.

Watchman é uma empresa de gestão de risco criada em 2016 por Christopher Goodwin-Hudson, um veterano de nove anos do Exército Britânico que mais tarde foi diretor executivo de segurança global do banco de investimento Goldman Sachs. A empresa vende suporte a clientes corporativos “nos setores de extração, agronegócio e projetos de capital” que enfrentam dificuldade para operar por causa de resistências locais. Curiosamente, a página da empresa na internet traz o logotipo do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido.

O diretor associado da empresa, Gabriel Carter, ocupou vários cargos seniores na indústria de segurança privada e em 2012 fundou uma empresa de segurança, com foco no Afeganistão, que “apoiou vários projetos de desenvolvimento britânicos e americanos”. Carter, também um veterano em gerenciamento de risco na Goldman Sachs, é membro do Special Forces Club <Clube de forças especiais>, um clube privado exclusivo e secreto para veteranos de inteligência sênior e das forças especiais em Knightsbridge, Londres. O Desclassified informa que nem a Watchman, nem Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido responderam às perguntas relacionadas ao seminário internacional.

 

Um prolongado cortejo

Os documentos revelados pelo Declassified UK mostram que a embaixada britânica atuou com celeridade no projeto de lítio depois do golpe, após ter amargado anos de tentativas malogradas de cortejar o governo socialista da Bolívia.

Depois de assumiu o poder em 2006, Morales livrou a Bolívia da dependência tradicional do país em relação às corporações ocidentais. Seu governo foi um dos mais competentes da América Latina nas últimas décadas, na redução da pobreza e no incremento do investimento em educação, saúde e infraestrutura.

O Ministério das Relações Exteriores observa que seu “primeiro compromisso com a Companhia Boliviana de Lítio” <Yacimientos de Litio Bolivianos>, YLB, foi em 2017-18, quando pagou £31.500 para organizar uma missão científica no Reino Unido. Ele se concentrou no treinamento do YLB em novas tecnologias para explorar e produzir lítio de forma “sustentável”. Os documentos observam que esse projeto “permitiu que organizações britânicas (…) realizassem projetos sobre lítio na Bolívia com financiamento [do BID] e [do governo do Reino Unido] nos anos seguintes”.

O governo do Reino Unido acrescenta que o “relacionamento com a Companhia Boliviana de Lítio também pode ser relevante, visto que a Bolívia se torna um fornecedor de lítio (um material crítico) para o Reino Unido” e referiu seu “esforço para conectar a Bolívia, Chile e Argentina (ou seja, o Triângulo de Lítio) com a London Metal Exchange”.

O programa do ano seguinte observa que “vínculos mais fortes” se desenvolveram entre o YLB e a embaixada britânica na Bolívia.

Os documentos também descrevem como, em abril de 2019, a embaixada britânica em Buenos Aires, Argentina, sediou uma “reunião técnica de alto nível” com as autoridades de mineração e lítio da Argentina, Chile e Bolívia, bem como representantes seniores da London Metal Exchange <Comércio de Metais Londrino>. É oportuno lembrar que, juntos, Chile, Bolívia e Argentina encerram o “triângulo do lítio” – a região dos Andes rica em reservas de lítio. Na época, Argentina e Chile tinham governos de direita alinhados ao Reino Unido.

Também presente na “reunião técnica” estava o vice-ministro de lítio da Bolívia e o chefe executivo do YLB. “O projeto da Embaixada Britânica na Bolívia… consistia em garantir e facilitar a presença das autoridades bolivianas na reunião”, relatam os documentos do Foreign Office obtidos pelo Declassified UK. Após a reunião, ainda segundo os documentos, o governo boliviano estava agora “ciente da relevância da London Metal Exchange” e particularmente “seu interesse em estabelecer um padrão de lítio” que seria baseado na produção do triângulo de lítio. Esses padrões servem “para promover o entendimento e a comunicação entre produtores e usuários de metal”.

As seções a seguir nesta passagem são editadas sob duas isenções relacionadas a “relações internacionais” e “interesses comerciais”. Estas são as únicas redações feitas na documentação do programa para os cinco anos de operações vistas pelo Declassified UK.

Veja a matéria completa aqui.

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