Pesquisas eleitorais: o dilema entre os diferentes retratos

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Primeiro turno das eleições finalizado, fica a pergunta: como explicar os votos de Jair Bolsonaro que as pesquisas não previram? As pesquisas sofreram, sim, algumas influências, principalmente por usarem uma base desatualizada vinda do Censo de 2010, mesmo com algumas projeções oriundas de Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílio (PNADs). Tais “discrepâncias” só enfatizam a importância do Censo.

Entretanto, elas refletem a fotografia de cada momento da corrida eleitoral e, muitas vezes, não são comparáveis estatisticamente falando – isso ocorre por alguns fatores, em particular por metodologias distintas. Daí termos de reconhecer que, “em média”, elas até acertaram o percentual que foi obtido por Luiz Inácio Lula da Silva (48,43%), dentro da margem de erro de quase a totalidade das pesquisas. 

Contexto: Para especialistas, chance de vitória de Lula levou ao voto útil de ciristas em Bolsonaro

O que elas não detectaram foram movimentações, até então impensadas, de eleitores que migraram de Ciro Gomes e Simone Tebet, os ditos nanicos de terceira via, para o Bolsonaro. Como explicar isso? Simples: tratam-se de eleitores do ainda antipetismo que procuravam um conforto de voto, aparentemente, identificando-se com esses dois candidatos. Também podemos supor a existência de eleitores desses mesmos candidatos que iriam, de qualquer forma, votar em Bolsonaro num eventual 2º turno e resolveram antecipar o voto.

Além disso, há o voto envergonhado, em que o eleitor diz que irá votar num certo candidato para não passar constrangimento quando, na verdade, seu candidato é outro. Logicamente, temos de associar a isso pelos menos outros três elementos:

1) No último debate entre os/as presidenciáveis (29/9), por exemplo, colocou-se no meio da festa um dito “bobo da corte” para tirar o foco do que realmente interessava. O caso do falso padre foi o tema mais comentado nos dois dias seguintes ao debate e bem próximo do dia 2 de outubro. Isso não permitiu uma reflexão sobre propostas de cada candidato/a por parte do eleitor. Se é que seria possível fazer tal reflexão a partir de um debate com tantos candidatos/as e no formato apresentado;

2) Havia também uma alimentação, por “um certo longo tempo”, de que uma terceira via fosse ainda viável – a “grande imprensa” também usou esse papel;

3) Durante toda a campanha, Ciro Gomes atuou como um bolsonarista.

Então, não se pode crucificar os institutos de pesquisa como um todo, mesmo porque também se pôde observar que o candidato Bolsonaro não tinha os 60% que ele e seu grupo achavam e propagavam que teriam. É fato. E são inúmeras as variáveis que os institutos têm de enfrentar – algumas delas são incontroláveis e podem, sim, não aparecer (de ser refletidas) nas pesquisas.

Há, ainda, outros aspectos, como mensurar os impactos dos diversos benefícios e uso da máquina. Entre eles: R$ 600 reais do Auxílio Brasil e R$ 1.000 a taxistas e caminhoneiros até dezembro; benefícios da redução no ICMS, especialmente para a classe média, em função da redução do preço dos combustíveis; e a melhoria de alguns indicadores sociais. É importante lembrar do orçamento secreto – além de levar muitos candidatos à reeleição, também ajudou a máquina, o que estudos futuros poderão identificar.

Outro elemento que não se deve esquecer é a redução do percentual de votos brancos e nulos observados nesse 1º turno com relação ao 1º turno de 2018, que, estatisticamente falando, foi bem mais impactante (significante) que o leve aumento da abstenção. Brancos caíram de 2,65% para 1,59% e nulos, de 6,14% para  2,82%. Já a abstenção passou de 20,33% para 20,94%. Como os três elementos refletem nos percentuais de votos válidos, pode ser aí também um aspecto que não tenha permitido que o candidato Lula tivesse atingido os 50% + 1 voto. 

A estatística também pode mensurar em parte essa questão. E isso, certamente, passará despercebido por quase a totalidade dos brasileiros, inclusive experientes especialistas políticos. Mesmo tentando refletir o mais fielmente possível, toda e qualquer pesquisa é um retrato do momento de um filme. Assim, o olhar longitudinal (temporal) é fundamental, pois a política é dinâmica, e uma parcela do eleitor é volátil, não só politicamente, mas também por questões sociais e econômicas.

Não podemos esquecer que temos um país continental, onde tudo é bem mais complexo, até mesmo para a estatística. Certo é que fazer pesquisa não é tão simples assim, e isso aumenta sua importância. E uma coisa é certa: se podemos dizer que ainda somos “analfabetos” politicamente, o que dizer do conhecimento estatístico por parte da sociedade? Bem complexo mesmo, não?

 

*Júlio Barros é professor do Departamento de Estatística e Matemática Aplicada da Universidade Federal do Ceará (UFC).

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

 

Fonte: BdF Ceará

Edição: Camila Garcia

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