Proclamado rei, Charles III assume monarquia britânica

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Aos 73 anos, Charles III teve sua ascensão ao trono do Reino Unido proclamada oficialmente na manhã deste sábado (10). A cerimônia no Palácio de Saint James, em Londres, acontece dois dias depois da morte de sua mãe, Elizabeth II, que com 96 anos de idade e 70 de reinado, se tornou a rainha mais longeva da dinastia. A pedido do novo rei, o evento foi transmitido pela TV pela primeira vez na história.  

O Conselho de Adesão, um grupo formado por deputados, funcionários públicos, lideranças religiosas e monárquicas, além do prefeito de Londres, Sadiq Khan, e a primeira-ministra, Liz Truss, anunciou a morte da rainha e Charles III como o novo rei. O monarca e as autoridades presentes assinaram um juramento.  

Boris Johnson, o ex-primeiro ministro que recém deixou o cargo sob escândalos envolvendo festas durante o lockdown da pandemia e denúncias de assédio sexual, estava presente. Além dele, os ex-premiês Theresa May, David Cameron e Tony Blair. Ainda será feita a cerimônia de coroação que, sem data marcada, pode acontecer em até um ano.  

“Eu sei o quão profundamente você, toda a nação, e acho que posso dizer que o mundo inteiro, simpatiza comigo pela perda irreparável que todos sofremos”, conjecturou o novo rei, em discurso. Salientando estar ciente da “herança dos deveres e responsabilidades”, Charles III afirmou saber que será “sustentado pela afeição e lealdade dos povos cujo soberano” foi “chamado a ser”. 

Monarquia e colonialismo no século 21 

Fruto da imposta relação colonial, os povos a que o rei se refere podem ser vários. Espalhados por todos os continentes do mundo, com exceção da Antártida, são 56 países os que, por serem antigas colônias, conformam a chamada Comunidade Britânica.  

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Destes, 14 terão Charles III como chefe de Estado, ainda que, na prática, sua função seja primordialmente participar de eventos e formalidades. São eles: Austrália, Antígua e Barbuda, Bahamas, Belize, Canadá, Granada, Jamaica, Papua Nova Guiné, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Nova Zelândia, Ilhas Salomão e Tuvalu. Barbados estava nessa lista até novembro de 2021, quando se tornou uma república e rompeu os laços com a monarquia.  

Os reis e rainhas britânicos cumprem o papel de chefes da Igreja Anglicana e, apesar de não influenciarem diretamente os rumos dos governos, a ele os primeiros-ministros têm de se reportar. Os monarcas também referendam as leis aprovadas pelo Parlamento do Reino Unido e, na teoria, têm o direito de vetá-las, apesar de não o fazerem desde 1707.  

Chás da tarde, eventos pomposos e instituições de caridade têm sido a maneira com que, atualmente, a família real mais tem aparecido ao mundo. Para estudiosos e pessoas cujas vidas foram diretamente impactadas pelo imperialismo inglês, estes eventos, mais do que atenderem a um público curioso por conhecer os luxos e as fofocas da realeza, cumprem um papel político.   

Herança

Em entrevista ao Brasil de Fato, Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), avalia que Elizabeth II atuou para que os olhos não se voltassem para as colônias do Reino Unido.  

Assumindo o trono em 1953, ela esteve à frente da monarquia durante o período em que se deram as lutas de libertação anticoloniais na África e na Ásia. O reinado de Elizabeth II apoiou e financiou o regime do Apartheid na África do Sul. A luta do povo do Quênia contra o colonialismo britânico nos anos 1960 foi marcada por uma reação sangrenta do império, com campos de concentração, de trabalho forçado e mutilações.  

Em 1966, três anos depois que o Quênia conquistou a independência, a Inglaterra, sob o reinado da mãe de Charles III, apoiou um golpe de Estado em Gana, que havia se libertado do colonialismo britânico em 1957. Assim, derrubaram o então presidente, Kwame Nkrumah, conhecido por sua luta pan-africanista.  

Para citar mais um exemplo da colonização inglesa cuja família real faz parte, a América Latina carrega um caso emblemático. A Marinha Real britânica não retira sua presença das Malvinas, arquipélago reivindicado pela Argentina e dominado pelos britânicos desde 1883. Em 1982, uma desastrada operação do então governo ditador argentino de Leopoldo Galtieri tentou recuperar a ilha, mas além do saldo de cerca de 600 argentinos e 250 ingleses mortos em 45 dias, o domínio do território se manteve inalterado.   

A história explica um vídeo que viralizou nas redes, de um programa satírico da TV aberta argentina que comemorou a morte da rainha. “Por fim morre alguém correto nessa vida, não?”, celebrou o jornalista Santiago Cúneo enquanto abria um champanhe.  

O Economic Freedom Fighters, partido da África do Sul que nasceu de um racha do Congresso Nacional Africano (CNA) de Nelson Mandela, publicou uma nota em que afirma que a instituição comandada por Elizabeth II e agora herdada por Charles III foi “construída e sustentada por um legado brutal de desumanização de milhões de pessoas”.  

A escritora nigeriana Karen Attiyah, colunista do Washington Post, publicou nas redes sociais que “pessoas negras e pardas, sujeitas a horríveis crueldades e privações econômicas sob o colonialismo britânico, podem ter sentimentos sobre a rainha”. Ela relata ainda: “Meus tataravós trabalharam na administração colonial, assim como meu avô. Meu pai e minha mãe nasceram em Gana e na Nigéria, no período do domínio britânico”.  

“O Reino Unido rejeita pedidos de visto da África duas vezes mais do que de outras partes do mundo, e ainda mantém itens culturais que saqueou de Gana. Mas claro, vamos beijar o anel”, critica Attiyah. 

Edição: Daniel Lamir

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