Revolta na Guatemala

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Tensão cresce

[Por Vivianne de Castilho Moreira]

A situação na Guatemala ainda é pouco nítida. Por um lado, é inegável o desgaste do atual presidente do país Alejandro Giammatei, do partido de direita Vamos!. Por outro, permanece difícil saber que vertentes ideológicas campeiam nas manifestações acirradas que vemos desde ontem e o que emergirá do jogo de forças nas ruas. Giammatei assumiu a presidência há dez meses, depois da deposição, com a subsequente prisão, de seu antecessor, também de direita, James Ernesto Morales Cabrera, ou Jimmy Morales.

O estopim para que mais de 10.000 pessoas se aglomerassem no Centro Histórico da capital do país, em frente à sede do Governo, foi a aprovação, pelo Congresso da Guatemala, do orçamento proposto pela presidência para o ano de 2021. O orçamento foi aprovado na calada da noite e sem que o total de 160 deputados tivesse acesso ao documento. Em que pese o montante histórico, o orçamento prevê cortes na saúde, educação, moradia e demandas sociais em favor de investimentos na área de engenharia, em parcerias obscuras com grandes empresas privadas.

Segundo o portal Esquerda Diário, diversos veículos apontam os Conselhos Estaduais de Desenvolvimento – Consejos Departamentales de Desarrollo – (CDC), que são órgãos geridos por governadores e prefeitos, como controladores de um percentual inédito do orçamento. Dos quase 100 bilhões de Quetzales do orçamento total (que correspondem a cerca de 13 bilhões de dólares), os CDC têm reservados quase 4 bilhões de Quetzales – o dobro dos anos anteriores. Muitos analistas consideram que essa porcentagem teria sido a moeda de troca para que deputados distritais aprovassem o orçamento em tempo recorde.

A crise na Guatemala atingiu um nível tão elevado que, ainda antes do início das manifestações, o vice-presidente do país, Guillermo Castillo, propôs ao presidente que renunciassem ambos ao cargo “pelo bem do país”.

As diferenças entre Giammattei e seu vice são notórias e têm como pivô um ente estatal denominado Centro de Governo. Esse Centro de Governo tornou-se o eixo da administração de Giammatei, que designou, para sua direção, Luis Miguel Martínez Morales, um engenheiro inexperiente de 31 anos.

Martínez Morales aparece constantemente ao lado de Giammattei em inaugurações estatais e eventos diplomáticos na Guatemala. O Presidente da Guatemala justifica essa proximidade alegando que o diretor do Centro de Governo é um homem de sua “absoluta confiança” e “amigo de longa data”. No entanto, ao que parece, nessa amizade, os negócios não estão à parte. Segundo publicação em setembro deste ano pela organização Plaza Pública, Martínez Morales e Giammattei têm sociedades empresariais que remontam a 2018, em uma empresa constituída em 2015 e à qual se vinculam outros membros da administração Giammattei, como o advogado Luis Alfredo Pineda Loarca, diretor do Registro de Imóveis.

A temperatura da manifestação elevou-se e uma parte dos manifestantes, cuja orientação ideológica ainda não está clara, adentrou o edifício do Congresso. Logo após iniciou-se, em parte do edifício, um incêndio, que foi atribuído aos manifestantes, mas repudiado por eles nas redes sociais.

Segundo alguns veículos de imprensa locais, a Polícia Nacional Civil (PNC) não interveio inicialmente, mas atuou com vigor mais tarde, lançando bombas de gás lacrimogênio para dispersar os manifestantes. Os protestos têm por alvo principalmente Giammattei e o presidente do Congresso, Allan Rodríguez, também filiado ao Vamos! de Giammattei. Manifestantes chegaram a colocar uma guilhotina em frente à sede do Governo.

Segundo o jornal El Periodico, uma outra manifestação está convocada para este domingo às 14:00 no Parque da Constituição. A convocação é feita no twitter pelo perfil Anonymous Guatemala, que se apresenta como “nem de esquerda, nem de direita, mas parte do povo, com os mesmos problemas de Saúde, Educação e Segurança”.

A repressão policial já deixou diversas pessoas feridas. E, nas redes sociais, Giammattei promete mais. Segundo ele, “tem-se direito de manifestar conforme a lei”, mas “não podemos permitir que se vandalize a propriedade pública ou privada. Àquele de quem se comprove a participação nesses atos delitivos, cairá todo o peso da lei”.

Ainda segundo o portal Esquerda Diário, as instituições se encontram profundamente desacreditadas e o executivo, permeado por disputas internas. Em outras palavras, há uma crise do conjunto do regime, decorrente da permanência dos velhos acordos de paz que preservaram o aparato repressivo, a pobreza extrema, a precarização completa, e a marginalização dos povos maias originários. Em síntese: todo o cenário que ensejou deposição de Jimmy Morales se mantém.

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