Vai-vai, Quilombo Saracura e o metrô: obra reacende luta pela

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“Respeita a minha história”. A frase estampava a camiseta de Fernando Penteado que, aos 75 anos, é embaixador mestre do samba paulista e presidente do conselho deliberativo do GRCSES Vai-vai, a agremiação que mais venceu o Carnaval de São Paulo. E resumia a história que veio literalmente à superfície e que junta o Vai-vai, o bairro do Bixiga, a história do samba, a memória da resistência negra em São Paulo, um dos maiores quilombos que existiram na cidade, e um metrô.

Isso porque durante as escavações de uma estação da Linha 6-Laranja do Metrô, entre as ruas Dr. Lourenço Granato e Manoel Dutra, foi encontrado um sítio arqueológico do Quilombo Saracura, comunidade negra que deu origem ao bairro do Bixiga (formalmente nomeado Bela Vista). Objetos como garrafas, louças e talheres datam do século 19 ao início do 20 e foram registrados no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como de alta relevância.

Saiba mais: Poder público esquiva de demanda por preservação do sítio arqueológico do Quilombo Saracura

A descoberta dos vestígios deixados por quilombolas às margens do hoje aterrado Córrego da Saracura, que deságua no rio Tietê, deu origem ao movimento Mobiliza Saracura Vai-vai. Formada por moradores do bairro, coletivos do movimento negro, sambistas, pesquisadores e outros ativistas, a articulação elencou reivindicações bastante específicas cujas respostas por parte do poder público, no entanto, têm sido evasivas.

O grupo demanda a paralisação temporária das obras, um projeto de preservação do sítio arqueológico que inclua a construção de um memorial e uma política de educação patrimonial permanente, bem como a mudança do nome da estação: ao invés de 14 Bis, que seja Saracura Vai-vai. Além disso, defende que, para garantir a permanência da população negra na região, sejam implementadas estratégias contra a previsível gentrificação que a chegada do metrô deve trazer. 

A Linha 6-Laranja do Metrô, prevista para ser inaugurada em 2025, está sendo feita por uma parceria público-privada. A Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, atualmente sob gestão do governador Rodrigo Garcia (PSDB), contratou a concessionária Linha Uni e as empresas Acciona e Alstom.  

O processo que a comunidade luta para impedir – sintetizado em cartazes pelas ruas como o que diz “Não somos contra o metrô, somos contra o apagamento histórico” – já está em curso. E tem na remoção da quadra do Vai-vai a sua expressão mais evidente.  

A quadra foi deslocada permanentemente para a marginal Tietê. Mas o acordo firmado entre a agremiação e a Acciona é que uma sede social da escola seja construída pela empresa em outro endereço (na rua Almirante Marques Leão), mas no seu território de origem. Restou, na antiga quadra, uma placa da Secretaria Municipal de Cultura indicando que ali já esteve uma das mais tradicionais escolas de samba de São Paulo.

O Quilombo Saracura 

Quando o avô de Fernando Penteado saiu de Amparo (SP) e em 1898 chegou, ainda menino, ao Bixiga, fazia apenas 10 anos da abolição formal da escravatura. Do pai herdou a música e, anos mais tarde, se tornaria o “Fredericão da zabumba” que “fazia a terra tremer”, segundo Geraldo Filme canta na clássica música Batuque de Pirapora. No Quilombo Saracura, os avós de Fernando se conheceram e ali cresceram as gerações seguintes.

No século 19, ao lado do metrô Anhangabaú, no que é hoje a Praça da Bandeira, ficava um entreposto onde tropeiros e mercantes que vinham rumo à Estrada do Piques – hoje rua da Consolação – vendiam mercadorias e pessoas escravizadas. Algumas conseguiam fugir.

Foi assim que, em região brejeira, se formou o Quilombo Saracura, um dos primeiros da capital paulista. O historiador Ernani Bruno encontrou, entre as atas da Câmara Municipal, um requerimento de 1831 pedindo que o poder público fechasse as passagens onde corria o rio Anhangabaú (modo como por vezes o rio Saracura era chamado, já que é seu afluente). Na justificativa, lia-se que nas margens habitavam “ladrões”, “escravos foragidos” e “aquilombados”.

Em 1907 uma matéria do jornal Correio Paulistano descreve a “linha de casebres que borda as margens do riacho” e se refere à região como “um pedaço da África”: “Cabras soltas na estrada, pretinhos semi-nus fazendo gaiolas, chibarros e longa barba ao pé dos velhos de carapinha embranquecida e lábio grosso de que pende o cachimbo, dão àquele recanto ares do Congo”. O texto menciona também um morador, “Pai Antonio”, cujas “mandingas celebram os supersticiosos”. Este lugar foi um dos berços paulistanos do samba.

Fernando Penteado nasceu numa terça-feira de carnaval de 1947. Em 1953, foi batizado no Samba de Pirapora, com a presença de figuras como Carlão do Peruche e Geraldo Filme. Filho de um homem negro e de uma mulher branca, de ascendência italiana, é fruto do encontro de dois dos povos que passaram a habitar a Bela Vista. Um do continente africano, trazido à força. Outro, do europeu, que chegou na região quase dois séculos depois, voluntariamente e com estímulos governamentais, como parte de uma política estatal de branqueamento pós-abolição.

Não é de se espantar que, em um país cujo racismo se manifesta também pela tentativa de apagamento, o bairro seja lembrado, para os que não o conhecem com mais profundidade, como exclusivamente típico da cultura italiana, com suas famosas cantinas.

O Vai-vai e o atropelo do “progresso”

Foi no terreno da antiga quadra do Vai-vai, a três metros de profundidade, que o sítio arqueológico foi descoberto. “O progresso vem para trazer coisas novas. Mas esse progresso apaga o passado”, sintetiza Penteado. Essa não é a primeira vez que ele vive, com a escola na qual desfila desde os cinco anos de idade, uma remoção.

Fundado em 1928 (mas oficialmente em 1930), o Vai-vai tinha uma casinha na rua 14 de julho. Até que, em 1970, veio o Minhocão (o elevado que, por via expressa, liga a região da Praça Roosevelt até a Barra Funda). “Somos um povo turrão. ‘Não vamos sair daqui, não vamos sair, não vamos sair'”, relata Fernando. Mas o oficial de justiça chegou – em plena semana de carnaval. E não teve jeito.

“Fomos desfilar. Saímos da avenida às 4h da manhã, pegamos um caminhãozinho, fomos lá na 14 de julho, violamos o lacre e catamos nossas coisas”, conta Penteado, que é também membro da Academia dos Baluartes do Samba de São Paulo. “O seu Chiclé, que passou a ser nosso presidente, tinha arrumado um terreno na praça 14 Bis. Tinha cerquinha de bambu, uma edícula, guardamos os instrumentos, fizemos um murinho. Ficamos lá. Por 50 anos. Aí veio outra vez o progresso… A nos desalojar.”

Segundo Penteado, desde 2005, de novo, eles dizem que não vão sair. “Até que… bum! Nos vimos ali como naquela música do Adoniran [Barbosa], Saudosa maloca. A maloquinha sendo destruída e eles do outro lado da rua olhando”, descreve. “Tivemos que tirar os instrumentos, pusemos na rua. Não tínhamos para onde ir. Entendeu? Tudo na rua. Os maquinários chegando…”, suspira.

Até hoje, Penteado evita passar ali. Prefere dar a volta. “Não, não dá assim para… porque 50 anos. Quantas vidas não tiveram ali? Eu conheci minha esposa ali. Meus filhos nasceram ali. Quantos amigos, quantos namoros, quantos, quantos, quanta alegria, quanta tristeza? São 50 anos.”

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O Vai-vai surge da dissidência da torcida do antigo time de futebol da Saracura, o Cai-cai. Fernando Penteado ouviu a história em primeira mão do seu avô, que estava lá. Segundo ele, a banda da torcida começou a fazer mais sucesso que o próprio time de futebol e era tida como arruaceira – daí os desentendimentos começaram. O estopim foi quando o pessoal do time fez uma festa e não convidou os músicos. Que foram mesmo assim. Tocando na porta, teriam angariado parte dos convidados e, ali na rua, a coisa esquentou.

Da ruptura nasceu o cordão carnavalesco Vai-vai, com as mesmas cores do time, mas invertidas: ao invés de branco e preto, preto e branco. Em 1972 o cordão se transformou em escola de samba.

Entre as figuras históricas da agremiação está o diretor de bateria Pato N’água. Mestre do apito, como era chamado, o sambista e capoeirista foi morto em 1969, em circunstância nunca bem explicada. Quando chegou a notícia, Geraldo Filme compôs Silêncio no Bixiga. Ele, aliás, ao lado de Osvaldinho da Cuíca, Pé Rachado e dona Rosa, está também entre as grandes personalidades da história da escola.

Rezamos cantando 

Em 2022 o samba-enredo do Vai-vai teve como tema o conceito do Sankofa. Originado de um provérbio tradicional dos povos de língua Akan da África Ocidental (Gana, Togo e Costa do Marfim), trata-se de um símbolo Adinkra: um pássaro mítico que voa para a frente, com a cabeça voltada para trás, carregando um ovo no bico. Representa o potencial de avanço a partir do olhar para trás; a ideia filosófica de que conhecer o passado permite a construção do futuro.



O provérbio que origina o símbolo é, em Akan, “se wo were fi na wosan kofa a yenki”: pode ser traduzido por “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”. / Reprodução

“O samba-enredo é uma reza para nós”, resume Penteado. “Eu, moleque, ia para o Vai-vai para sambar e rezar. Sabe?… Porque você goste ou não, o samba é isso. ‘Ah, mas eu não sou, eu não gosto’. Mas se você estiver numa escola de samba, no primeiro repique do tambor, os orixás encostam em tudo. Porque foram chamados ali.”

“Eu acho legal a miscigenação que o samba faz. Só fico bravo mesmo quando querem se apropriar. E é o que acontece com a nossa cultura. Enquanto é ilícito, é coisa de preto. Já fui chamado de vagabundo porque sou sambista. Já fui chamado de macumbeiro porque minha tia tinha um centro. Passou a ser lícito, o branco vem, já faz comércio, toma conta e fala que é dele”, argumenta o membro da velha guarda do Vai-vai.

Cantarolando o Vai cuidar de sua vida, samba que fala disso, Penteado relaciona as mudanças impostas pelo “progresso” que chega no Bixiga e a luta pela preservação da memória do quilombo, com o embranquecimento de diferentes manifestações da cultura afro-diaspórica. Sobre as coisas que se perdem. “A gente, mais antigo, percebe isso”, explica.

“Nossa invisibilidade acontece desde quando nós chegamos aqui, no século 16”, diz Fernando, que começa um relato histórico, nos transportando, de forma imaginativa, como se fôssemos membros da mesma família, sequestrados da África. Chegando no Brasil, “a primeira coisa que faziam era não nos comprar junto. Mas o que a gente fazia? Para não perder nosso vínculo, a gente rasgava um pedaço de roupa, desenhava um símbolo no pano. Se somos nós três, são três pedaços, cada um levava um pedaço. E daí… nunca mais a gente ia se ver. A única lembrança era aquele pedacinho de pano”.

Passam os séculos. A partir de 1827, por conta das procissões para agradecer a santa de Pirapora de Bom Jesus (SP) pelas colheitas, pessoas escravizadas de diferentes partes do estado eram levadas pelos senhores até a cidade e se alojavam em barracões na margem do rio Tietê. Ali, noite adentro, eram feitas as rodas de bate-semba: nasciam os batuques de Pirapora.

“De repente, numa dessas rodas, isso já em 1900 e pouco, eu olho para você. E falo nossa, somos parentes. Como eu descobri? Você estava usando o paninho”, diz Fernando. “E no ano seguinte, trazemos o paninho em uma flama ou em um estandarte”, relata. “A gente respeita tudo quanto é paninho. Porque atrás dele tem uma comunidade. Entendeu? Atrás dele tem gente. Isso é muito forte para nós.”



Fernando Penteado tem 75 anos, é sambista, jornalista e conselheiro vitalício da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de São Paulo. / Pedro Stropasolas

Fernando Penteado levanta e caminha até o estandarte do Vai-vai, pendurado na parede. “Nosso paninho é esse aqui.”

A coroa faz referência ao cumprimento frequente entre a comunidade negra no Bixiga até a década de 1970: meu rei, minha rainha. “Já que éramos reis e rainhas lá, aqui vamos permanecer assim. Essa coroa representa tudo isso. A negritude, a resistência do Bixiga.”

O ramo de café, embaixo, é por conta dos barões do café, que moravam em grandes casarões na av. Paulista, onde muitas das moradoras do Bixiga trabalhavam e de onde vinham, por vezes, doações para o cordão. “Se doaram alguma coisa, vamos homenageá-los aqui, para aumentar”, ri Penteado.

Quem desenhou o paninho do Vai-vai foi seu avô. Fredericão não estaria vivo para ver seus netos e bisnetos cantando o samba-enredo de 2022. Mas a luta em torno da memória da resistência negra neste território, da qual ele e tantos outros fizeram parte, faz com que, como sugere o sankofa, a sua história integre a disputa pela ressignificação do presente e pelo que será do futuro. “Tambor africano de negra bravura / é o mesmo tambor da Saracura”, diz a letra: “Quilombo do samba não morre jamais”.

Edição: Nicolau Soares

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