“Véio da Havan” com Covid

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Foto: DIDA SAMPAIO / ESTADÃO CONTEÚDO

Nesses últimos dias, houve uma série de desdobramentos referentes à produção da vacina Coronavac que demonstraram a incapacidade do Governo Federal em conduzir esse processo. 

Lembrando que Bolsonaro já havia demitido o Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e posto Nelson Teich em seu lugar, este em um mês se demitiu, tendo sido substituído pelo ministro atual, o general Pazuello, porque seria supostamente um expert em logística, mas que, até o momento, tem demonstrado que não é tão especialista assim, pelo contrário. Afinal, a bagunça está instaurada e  institucionalizada. 

É o que vemos na sua comunicação problemática com a Índia, país o qual tinham um acordo, mas a vacina não foi enviada conforme o combinado; agora o Governo está com problemas relativos aos insumos da China, devido a questões diplomáticas causada por próprios integrantes do governo ou por pessoas no entorno do presidente. Já tive a oportunidade de me expressar sobre como o chanceler Ernesto Araújo, os filhos do Bolsonaro e outros bolsonaristas estiveram constantemente antagonizando a China, que, por sua vez, agora está “dando o troco”.

Está instaurado o caos como política de Estado, o caos como método de governo e isso obviamente terá consequências. Até porque pairam dúvidas, como: até quando as vacinas durarão no Brasil? Até quando será possível empreender essa campanha de vacinação nos próximos meses?

E o que os bolsonaristas estão fazendo? E isso inclui o próprio Presidente, o ministro Pazuello e outras figuras do governo. Estão destruindo as provas! Explico. Desde maio de 2020, Bolsonaro e seus seguidores estavam defendendo a cloroquina como um remédio, parte de um tratamento precoce para a Covid-19, o que foi um dos motivos de divergência e tensão entre o Mandetta e Bolsonaro, já que o presidente queria encampar o uso desse remédio e Mandetta se recusou porque não havia a menor justificação para tal. Mandetta é médico e preferiu seguir as recomendações da Organização Mundial Saúde (OMS). A tensão culminou na demissão do então Ministro da Saúde.

Enquanto isso, Bolsonaro aparecia nas ruas com caixas de Cloroquina e seus seguidores cantando “Cloroquina, Cloroquina!”, ou seja, temos um presidente que vestiu a camisa em defesa deste medicamento e empreendeu essa campanha como se fosse a resposta, ou melhor, a solução contra o coronavírus – o que é uma mentira. E uma vez que surgiu a vacina Coronavac, o governo está se apropriando dela como se lhe pertencesse – mesmo sabendo que é criação do Instituto Butantã em parceria com a China –, e se esforçando para tentar destruir as evidências de que Bolsonaro, em algum momento da sua vida, defendeu o uso da cloroquina. É o que vemos na recente entrevista coletiva do ministro Pazuello negando que recomendou o tratamento precoce com a cloroquina, demonstrando a enorme “cara de pau” dessas pessoas, o quanto são mentirosas e não têm a menor vergonha disso. Essa coletiva mostra como eles mentem descaradamente e isso faz parte de uma estratégia para confundir as pessoas por meio da manipulação da realidade, porque o que menos importa nessa manipulação são os fatos, basta verificar essa entrevista.

Se o governo Bolsonaro servir para alguma coisa, será para destruir completamente a reputação das Forças Armadas, porque esses generais que integram esse governo, figuras como Pazuello, são uma desgraça e demonstram realmente como é a mentalidade de boa parte desses militares, que chegam ao ponto de se fundirem, tornarem-se um híbrido com o bolsonarismo. Algo pavoroso, horroroso. É o que atesta essa entrevista de Pazuello, negando que tenha defendido, em qualquer momento, o tratamento precoce ou a cloroquina. Só que há um grande detalhe, um grande “porém” aqui, pois se qualquer pessoa acessar a página “TrateCov Brasil”, do site do Ministério da Saúde, aparece um formulário clínico elaborado por essa entidade, sob comando do Pazuello, quero ressaltar isso. Essa página está em fase de simulação, mas foi projetada para fazer o diagnóstico de Covid, a fim de ajudar médicos e enfermeiros. Eu testei a página, inserindo dados fictícios e alguns sintomas, por exemplo, fadiga, perda de apetite, dor de garganta, dor em membros inferiores e náuseas, enfim, sintomas aleatórios. Olha a recomendação que essa página oficial do Ministério da Saúde me deu: “sinais de alerta de gravidade de Covid-19, se apareceu alguns desses sinais, encaminhar o paciente para a unidade de emergência.” Em seguida, eles analisam o score da gravidade, no caso 16 – seria um caso grave. Pelo menos, por esse formulário, eu teria sintomas que poderiam indicar Covid. Ainda aparece nessa página: “Diagnóstico de Covid-19 – score 6 pontos ou mais: iniciar tratamento precoce para o Covid-19.” Depois o site indica qual seria esse tratamento: “paciente receberá tratamento precoce?” Coloquei como “Sim”, – afinal, em tese, é um tratamento precoce para evitar que a pessoa piore – seguindo a recomendação do portal do Ministério da Saúde através dessa página, deste aplicativo para ajudar médicos e enfermeiros a cuidarem de pacientes no Brasil, nesse caso específico, para ajudar os profissionais de Manaus, recomendando a cloroquina, a hidroxicloroquina e a ivermectina. O ministro havia dada uma entrevista coletiva negando estas recomendações, mas essa página do Ministério prova o contrário. São mentirosos e tentam apagar as provas, como na conta do Twitter do Bolsonaro, de onde estão apagando as fotos antigas nas quais ele aparecia mostrando a caixinha de cloroquina, tentando agora reverter essa história. Algo como no livro 1984, de George Orwell, no qual é descrito um “Ministério da Verdade” que faz justamente isso, reescrevendo o tempo todo as notícias, tentando apagar o passado e as figuras históricas, modificando as narrativas, ou seja, estão fazendo isso quando dizem que Bolsonaro jamais defendeu a cloroquina ou o tratamento precoce.

Ainda sobre isso, soubemos recentemente que o “Véio” da Havan, Luciano Hang – dono das lojas Havan estava contaminado com Covid-19, assim como sua esposa e sua mãe. Sei que tem pessoas que torcem e acham que isso é justo, mas não sou esse tipo de pessoa que celebra essas coisas, que espera que ele morra ou piore, não consigo, não é da minha natureza. Por outro lado, para essas pessoas que negam a vacina, o coronavírus e a pandemia, muitos defendem que elas assinem um termo de compromisso declarando que não querem ser vacinadas, que não querem receber esse tratamento. Até entendo essa revolta, muitos estão saturados, querem que tudo se dane, que  o “Véio” da Havan morra logo, que morram esses bolsonaristas, mas, por outro lado, se formos estender essa lógica pensando em várias circunstâncias e em outros casos, é uma lógica perigosíssima. Porque, no caso da vacinação, para poder atingir uma imunidade coletiva, é necessário que 70% da população seja vacinada e esteja imunizada. 

Então, mesmo o tal “gado bolsonarista”, mesmo os negacionistas da vacina e os fanáticos bolsonaristas terão de se vacinar para que haja eficácia coletiva, senão, não funciona.  Nessa lógica, se esses 30% da população ou mais que apoia Bolsonaro não se vacinar, poderá atrapalhar os esforços de vacinação para todas as outras demais pessoas e não apenas para o gado bolsonarista, isto é, a eficácia depende também dos negacionistas e esso é a pior constatação de todas, posto que você tem de esperar que essas pessoas queiram se vacinar. É complicado.  

Além disso, essa lógica não funciona no mundo real, porque se você pensar assim, “se não tomar vacina, deixe que morra”, que abra mão do respirador para que outra pessoa possa se tratar, libere a vaga de UTI – e eu já vi esse tipo de comentário –, nisso entramos numa questão filosófica da Bioética, sobre quem merece tratamento, quem tem prioridade no atendimento. Se você pensar em outros tipos de enfermidades, como câncer de pulmão, quando temos, por exemplo, um fumante que desenvolveu esse tipo de doença mesmo sabendo dos malefícios do cigarro, e ainda assim continuou fumando, assumindo esse risco. Ele não merece tratamento também? Não merece ser levado para uma UTI, receber transplante ou algum tipo de atendimento? Uma pessoa que durante a vida inteira consumiu altos índices de açúcar, doces e desenvolveu diabetes, não merece tratamento? Uma pessoa que bebe e dirige, sofre acidente, não merece tratamento porque adotou um comportamento de risco, quando assumiu o perigo de beber e dirigir? Pois qualquer pessoa pode sofrer um acidente ou desenvolver uma doença e aí fica complicado defendermos essa lógica: só merece tratamento quem respeitou às normas, respeitou a ciência, respeitou comportamentos que não são arriscados? 

Isso não funciona porque, na verdade, todos nós, de um modo ou de outro, adotamos comportamentos que não são totalmente saudáveis e sofreremos as consequências disso, necessitando de tratamento e vindo a ocupar um leito de hospital, de UTI, receber um transplante. Então, não é como as coisas funcionam, obviamente, sabemos disso, pois todos vamos envelhecer e precisaremos de tratamento para doenças que foram, muitas vezes, consequência do nosso próprio comportamento inconsequente. É de fato exagerar um pouco no raciocínio, mas temos de pensar que mesmo esses negacionistas merecem tratamento, por mais que sejam idiotas. 

Alguém pode alegar, ainda relacionado ao “véio” da Havan, que, se esses bolsonaristas morrerem, não farão falta, porque essas pessoas contribuem para a situação, contribuem para o negacionismo, e de fato contribuem mesmo, como o próprio “Véio” da Havan, alguém que aglomerou compradores em suas lojas – há imagens dele chamando, conclamando a população para ir às suas lojas. De fato, é alguém que contribui para isso. 

Um argumento que já ouvi muitas vezes, sobre uma “viagem no tempo para matar o Hitler”, apresenta o seguinte cenário: se você tivesse a oportunidade de voltar para o passado para matar Hitler, você não faria isso? Para evitar a desgraça da Segunda Guerra Mundial? Para poupar o mundo do Holocausto?

Primeiro que esta é uma situação totalmente hipotética, porque viagem no tempo (para o passado) é impossível, conforme atestado pela ciência, mas, por outro lado, isso é resultado da atribuição de uma enorme carga, uma enorme responsabilização individual. Quando lemos alguma biografia de Hitler, por exemplo, percebemos que ele, em grande parte, reproduzia uma mentalidade coletiva que era antissistêmica e também antissemita. Assim como Hitler, outras pessoas também reproduziam esta mentalidade, por isso, não há a menor garantia de que, se por acaso, Hitler não houvesse existido, não haveria outra pessoa como ele ou até pior que houvesse chegado ao poder na Alemanha e causado os males que causou. Não temos como saber. Tampouco há como saber se tivéssemos retirado essa engrenagem desse mecanismo histórico, se deteríamos essa máquina de destruição. Não é possível saber isso. 

Isso é resultado de uma enorme responsabilização individual, mesmo sabendo que esses mecanismos são altamente contextuais e coletivos. É claro que você tem um doido mais doido do que outros. Mas, em geral, isso pertence a um processo. Pensemos, por exemplo, no racismo, no machismo ou na homofobia, e nos depararemos com encontrar indivíduos racistas, machistas e homofóbicos. Só que, além disso e abaixo disso, há uma estrutura que é racista, homofóbica, patriarcal. Logo, essa estrutura social permite que indivíduos se manifestem no interior dela e é criada uma série de obstáculos para determinados grupos minoritários. É como se fosse um círculo vicioso porque há essa estrutura que cria indivíduos que reforçam a estrutura, logo, matar ou eliminar um indivíduo específico, não acabará com essa estrutura.

Sendo assim, teríamos de atacar a sua base, na verdade, pois é ela que está gerando esse tipo de pensamento, esse tipo de raciocínio, que foi exatamente o que ocorreu com o fascismo e o nazismo. Era uma estrutura surgida de uma série de pensamentos e ideologias que vieram culminar numa tragédia potencializada pelos atos de indivíduos. 

Sobre Bolsonaro, ele não é a doença e sim o sintoma da doença, um elemento que surfou numa série de ressentimentos, de emoções, de inquietações e de raiva coletiva no Brasil, enfim, só canalizou isso, mas não foi ele quem criou estes sentimentos. Ele não engendrou o antipetismo, não criou essa revolta da classe média brasileira que se espelha nesse fulano, não criou essa mentalidade armamentista e nem cultura militarista, essa apologia à violência, aos ditadores e torturadores, mas canalizou isso.

Portanto, se outra pessoa tivesse se aproveitado desses sentimentos, também teria obtido, possivelmente, os mesmos ganhos políticos de Bolsonaro, talvez fosse pior ou melhor, mas é difícil você tentar argumentar como se esse indivíduo fosse a causa de todos os males do universo, porque isso não existe e seria raríssimo encontrarmos um indivíduo detentor de um poder único, singular, de transformar a História. Isso quase nunca acontece, pois são processos coletivos e se Bolsonaro chegou ao poder é porque há milhões de pessoas que têm o pensamento parecido ao dele, que olham para ele e se espelham no que ele diz. Se há milhões de brasileiros querendo usar a cloroquina e ivermectina, negando a vacina e a ciência, é porque existem muitos que pensam parecido com Bolsonaro.

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