Venezuela quer vender petróleo ao Ocidente e aliviar

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Apesar de apostar na superação do setor de petróleo, a Venezuela segue dependendo da reativação de sua indústria energética para entrar de vez no caminho da recuperação econômica. O setor, que já foi responsável por mais de 95% dos ingressos do país, entrou em uma profunda crise após a queda do preço do barril de petróleo e as sanções econômicas impostas pelos EUA.

Agora, com os acenos que tem recebido de Washington desde o início do ano e uma leve recuperação na produção da estatal petroleira PDVSA, o país vê a possibilidade de voltar a ser um fornecedor do mercado norte-americano e espera que essa possível retomada comercial termine flexibilizando as sanções econômicas contra o setor.

Em entrevista à emissora estatal VTV transmitida no início do mês, o ministro das Relações Internacionais da Venezuela, Carlos Faría, deixou clara a interpretação do governo sobre a intenção da Casa Branca nas negociações com o presidente Nicolás Maduro e afirmou que a reaproximação deve levar a um alívio no bloqueio.

“Ainda que [Maduro] sempre tenha estado aberto, isso foi uma iniciativa do governo dos Estados Unidos, de fazer essa aproximação para normalizar as relações, não as relações diplomáticas com o desmonte das sanções, mas sim uma normalização no intercâmbio energético, porque o interesse nesse momento é dos Estados Unidos. [Eles fizeram isso] sem desmontar nem meia medida coercitiva que aplicaram contra nós, mas pensamos que isso pode melhorar uma vez que se restabeleça a cooperação no âmbito econômico, especificamente energético”, disse o ministro.

O próprio presidente venezuelano mencionou os riscos que os mercados europeu e norte-americano enfrentam com a chegada do inverno, disse que a crise pode ser “trágica e espantosa” e afirmou que a Venezuela “tem cada vez mais importância na equação energética e na estabilidade econômica do mundo”.

“Eu digo à União Europeia e aos Estados Unidos: a Venezuela está aqui, sempre estará aqui, com seu petróleo e gás à disposição para estabilizar o mundo. Estamos preparados para exportar nossos produtos a todos os mercados que necessitam”, afirmou Maduro. 

O caminho, entretanto, deve ser turbulento e as disputas internas da política estadunidense ameaçam travar as negociações entre Washington e Caracas. Para o cientista político venezuelano Luis Eduardo Díaz, o interesse das petroleiras norte-americanas em retomar suas operações na Venezuela é enorme, mas as conversas entraram “em uma espécie de pausa” por conta das eleições de meio mandato que acontecem em novembro nos EUA e podem retirar a maioria que o Partido Democrata tem no Congresso.

“Tudo indica que as negociações com a Venezuela ainda não puderam avançar pela pressão política interna e pelo controle de danos que os democratas tentam fazer. Parece que as conversas estão paralisadas, estão em ‘stand by‘ e que será no mês de novembro, logo depois das eleições midterm nos EUA, que haverá um esclarecimento sobre como elas podem avançar”, diz.

Ao Brasil de Fato, Díaz explica que o Partido Democrata teme perder votos para os republicanos entre o eleitorado conservador se concretizar uma reaproximação com a Venezuela e retirar sanções contra o país. Além disso, um resultado negativo para o partido do presidente Joe Biden deixaria o cenário ainda mais indefinido por conta da pressão que o governo poderá sofrer do Legislativo.

“A disputa no modelo norte-americano sempre está ligada aos Estados. A Flórida, por exemplo, é um Estado chave onde está concentrada uma alta porcentagem eleitoral republicana que pode ser ampliada se o governo de Biden demonstrar uma aproximação com o governo venezuelano”, afirma.

Outro elemento considerado fundamental para as relações entre os países é a retomada dos diálogos entre governo e oposição da Venezuela. Paralisada desde outubro do ano passado, a mesa de negociação serviria para discutir o fim das sanções e a liberação de ativos venezuelanos congelados no exterior. No início do ano, ambas as partes manifestaram desejo em retomar as conversas, mas não anunciaram uma data de retorno ao México, país sede dos diálogos.

EUA, os donos da bola

Nas últimas semanas, a gigante energética Chevron reforçou seus apelos ao governo estadunidense para que elimine sanções e libere a retomada de suas operações em plantas venezuelanas. Segundo a agência Reuters, o Departamento do Tesouro dos EUA pediu mais detalhes dos acordos que a empresa estaria planejando com a estatal PDVSA.



A estatal de petróleo da Venezuela, PDVSA, está sob sanções dos EUA / Luis Robayo / AFP

Ao mesmo tempo, o governo da Venezuela afirmou que “está pronto” para retomar as parcerias com a empresa. Segundo o ministro do Petróleo e presidente da PDVSA, Tareck El Aissami, os detalhes entre as partes já estão acertados e a reativação só depende de Washington. 

“Nós estamos preparados, prontos. Discutimos e acordamos com eles tudo sobre a imediata retomada das operações, mas não depende mais de nós. A bola está no campo do governo dos Estados Unidos”, disse.

Desde que Washington flexibilizou algumas sanções contra o setor petroleiro venezuelano logo após enviar delegações para dialogar com o governo Maduro, a volta do comércio de petróleo entre os dois países passou a ser encarado como algo iminente. Isso porque não só os EUA, mas também a Europa, enfrentam uma crise na demanda por combustíveis que foi afetada pela interrupção no fornecimento dos produtos russos por conta da guerra na Ucrânia.

Países sancionados como Venezuela e Irã voltaram a ser considerados como potenciais fornecedores de combustíveis ao Ocidente. Em maio, o governo Biden decidiu aliviar algumas sanções que pesavam sobre a Chevron e, embora não tenha liberado a retomada da produção em solo venezuelano, permitiu que a empresa iniciasse negociações com a PDVSA.

Para Miguel Jaimes, doutor em geopolítica petroleira, mais urgente do que o retorno de empresas estadunidenses ao setor energético venezuelano, é necessário suspender sanções que impedem compras de equipamentos e insumos para recuperar plantas nacionais avariadas e investir em novas tecnologias. 

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“Deve existir participação estrangeira, sem dúvidas, mas o bloqueio deve ser flexibilizado para permitir nossas próprias aquisições, algo que não é tão fácil por conta dessa situação. Há muitas feridas e cortes no setor econômico, mas quando interpretamos os discursos dirigidos a um futuro muito próximo, quase que um futuro presente, vemos que o aparato, a estrutura e a política que o governo realiza estão sendo afinados para que de maneira imediata muitas negociações e tratados aconteçam”, afirma.

Assim como outras empresas estrangeiras do setor, a Chevron foi obrigada a suspender suas atividades na Venezuela após as sanções impostas pelo então presidente Donald Trump, que praticamente interromperam toda a exportação de petróleo venezuelano aos EUA. Por meio de uma licença, Washington permite que a empresa siga no país apenas para realizar a manutenção de suas instalações.

A Chevron opera em 4 plantas mistas na Venezuela, cujas ações majoritárias pertencem à estatal PDVSA. Caso a empresa seja autorizada a voltar a produzir em território venezuelano, a produção de petróleo no país pode chegar a aproximadamente 1 milhão de barris por dia.

Jaimes, entretanto, afirma que mesmo com um aumento na produção gerada pelo retorno de algumas empresas estrangeiras à Venezuela, será necessário mais investimento para suprir as demandas europeias e norte-americanas por petróleo.

“Não é possível chegar em qualquer país petroleiro e dizer que por todo o dinheiro do mundo quer começar a comprar 3 ou 4 milhões de barris de petróleo ali, simplesmente porque para uma produção desse nível é necessária uma complexa engenharia de portos, terminais, dutos, barcos e tudo isso não se constrói da noite para o dia”, afirma.

Edição: Thales Schmidt

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